A Carona

06-05-2010

Morava numa cidade de Minas, bem dinâmica para a época. Tinha um laboratório de análises clínicas e estudava na faculdade. Coincidentemente, descobri um advogado aqui em Lafaiete, meu colega de sala no curso de Matemática. Lembramo-nos do professor de matemática - um rapaz de aparência e família humildes, mas certamente o melhor professor que tivemos. Na época, introduziam-se os conjuntos no estudo da matemática; para dizer a verdade, talvez o meu netinho de seis anos saiba e os compreenda mais do que eu.

Fiz amizade com um comerciante quase vizinho. Homem maduro, sério e ponderado no que agia e falava. Bom papo, boa pessoa, esposa simpática e ótima família - pessoal educado.

Em Fabriciano, na hora de voltar para o serviço e estudos, com problema em um dos pneus do carro, fui à retífica, onde trabalhava um irmão, o Darcy. Com algum defeito nos pneus, apareceu o amigo comerciante. Carro lotado com seis adultos - a esposa, um filho e três filhas acompanhavam-no.

Ofereci carona para o filho e, talvez, mais uma filha. Consultados, desvencilharam-se, retirando-se aos poucos. Nesse ínterim chegou um carro com um rapaz conhecido - as três moças aceitaram sua carona.

Pegamos estrada quase em fila indiana. Os carros, com potência mais ou menos igual, impediam distanciar muito um do outro. O rapaz e as moças na frente e eu no meio - o pai, aos poucos, ficando para trás.

Numa lombada, na estrada Rio-Bahia, perto do destino acelerei para poder chegar mais ou menos junto com o rapaz. No alto da lombada, avistei uma reta de uns quinhentos metros e o carro dele chegando ao fim, onde havia uma ponte, e a seguir uma curva de noventa graus à direita. Quando o carro atravessou a ponte e começaria a entrar na curva, apareceu um caminhão, invadiu sua pista, e o rapaz entrou debaixo entre os pneus, batendo e pegando fogo no mesmo momento - deu para ver tudo, inclusive o estrondo da batida, pois estava de olho nele. Cheguei perto e vi os ocupantes do carro desesperados querendo sair e não conseguiam, ao mesmo tempo sufocados pela fumaça e logo a seguir atordoados pelo fogo, com as chamas invadindo completamente o exterior e interior do carro. Em certo momento, tudo questão de segundos, o tanque de óleo do caminhão foi afetado, espalhando o óleo por sobre o carro. Houve uma explosão e não se viu mais nada - como eu já havia saído de meu carro, apenas deu tempo para eu correr da bola de fogo e fumaça.

Fisionomias e reações de aflição, o instinto de sobrevivência… e a inércia que ficamos, eu e o pessoal que parou para ver ou socorrer, por não podermos fazer algo… doeu na gente!

Chegaram os pais… Abri os braços em sua direção e vieram perguntar-me o que houve - perceberam minha apreensão. O irmão reconheceu o carro. Caíram em desespero!

Benedito Franco

Você pode ser doador de sangue ou de órgãos… Já pensou nisto?

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