INSPIRAÇÃO

08-03-2010

São 5:40 h da manhã. Na rua os termômetros já marcam 23 graus. Eu saí pedalando para me antecipar e buscar a chuva que há dias a meteorologia promete que vai  cair a partir de hoje. Vou de encontro dela para refrescar um pouco. Não tem sido fácil ter uma boa noite de sono diante de tanto calor. Queria ter ficado no computador, posto que minha vontade era de  escrever. Mas andando de bicicleta, nem mesmo levando o note book nas costas tem jeito; eu teria que fazer uma coisa ou outra. Ademais, se chove, adeus minha tecnologia ambulante.

Então, dispenso a modernidade e volto para o papel, mais precisamente, meus “papelim”, como gosto de falar de um jeito bem mineiro. Papelim é gíria de quem gosta de cigarro de palha. Hoje em dia ele já está industrializado, vendido até em caixinhas, mas houve um tempo em que na falta de uma palha de milho, o fumo era enrolado em qualquer tirinha de papel limpo. E são essas tirinhas e caneta que me acompanham. Tenho no bolso, no banheiro, na cômoda ao lado da cama, no porta-luvas do carro. Sempre que aparece uma idéia, eles estão ali, à mão. Afinal, eu sempre costumo dizer que qualquer um pode escrever. Vira escritor é quem  tem a idéia e anota. Falo dos comuns. Os geniais não precisam desses recursos. O cara faz aquela cara estranha, bota a mão no queixo, coça a cabeça, deita a mão no teclado  e saem coisas maravilhosas. Eu vou exercitando um pouco a cada dia. Se fosse genial eu dispensava esses recursos e pitava o papelim.

Não sabem desse causo? Os dois caipiras, viajando num ônibus numa época em que era permitido fumar em qualquer recinto ou ambiente. Vem o fiscal de viagem e lhes pede a passagem para conferência. Pede e fica esperando e o cara calado.

- Senhor, a sua passagem.
- Que”passage” moço?
- O bilhete que o senhor comprou para viajar.
- Ah, aquele pepelim branco?
- Sim!
- Ih, pitei ele!

ANTA CIBERNÉTICA

23-02-2010

Esse título me chamou a atenção ao ler umas desculpas de uma blogueira. Chamou a atenção é eufemismo para o puxão de orelhas que senti A gente hoje vai comprar um computador e tudo o que o vendedor sabe dizer é tantos giga, tantos RAM, wireless… Ou seja, todos os recursos que o equipamento possui, mas ninguém sabe explicar como usar. E os manuais vêm com uma linguagem que só quem é especialista no assunto entende. E olha que já fiz cursos de DOS, Windows, Word, Excel e o escambau. Mas adiantou pouco.

É como aprender a dirigir num fusquinha e comprar um carro ultra moderno. A gente não esquece como se dirige, não esquece o controle de embreagem, não esquece as regras básicas do trânsito. Depois vem o carro novo, como retrovisor do lado direito, cambio automático, computador que controla injeção de combustível… Até aprender, é inevitável dar umas navalhadas no trânsito. Curso de informática a gente tem que fazer toda semana. Ou então deveria algum nerd ter a brilhante idéia de colocar um alerta na net nos programas mais usados universalmente para nos ensinar a manusear todas as novidades que aparecem. E como aparecem!

O bom da tecnologia é quando a gente a controla. Quando é ela que controla a gente, dá um medão danado. Lembro a primeira vez que dirigi um carro hidramático do meu patrão. Não tinha o pedal da embreagem. Cada vez que eu sentia a necessidade de passar uma marcha (desnecessária), pisava naquele pedalzão que era o freio e dava uma brecada no meio da rua. Não levei uma batida na traseira por pura sorte. E nem ia ter aquela desculpa de que quem bate na traseira está errado.

Ultimamente tenho me sentido assim com o computador. Eu não consigo dominá-lo. Me lembro do primeiro curso sobre windows que fiz e o rapaz começava as aulas assim: - Gente, o computador é uma máquina burra. Ele só faz aquilo que você lhe mandar. Quem é inteligente somos nós. Que arrogância do cara! Acho que ele se enganou redondamente. Pelo menos no meu caso!

Fui convidado para participar de alguns sites de literatura em que determinados procedimentos (que chamam de básicos) têm que ser formalmente cumpridos. Me enrolei todo, os textos não saíram publicados. Mandei e-mail achando que estava sendo censurado ou tinha desagradado com textos de baixíssima qualidade ( se bem que pode ser isso!).

As aulas de datilografia eram explicadinhas, gente! Eu conhecia um teclado da máquina de escrever como ninguém. Ai, que Saudades da Dona Ruth.1
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1 - D. Ruth foi minha professora de datilografia.

CRÔNICA DE FIM DE ANO

04-01-2010

Quando eu era criança ouvia os mais velhos dizerem uma frase que reportavam à bíblia: “a mil chegará, de dois mil não passará.” Era o apocalíptico fim do mundo, segundo a crença de muita gente. Ficava temeroso mas um tanto aliviado. No ano de 1999 ia estar com 37 anos e já teria vivido demais. Para uma criança, alguém de trinta e sete anos é um velho. Medo, no entanto, eu tinha algum. Afinal, qualquer pessoa saudável não quer morrer mesmo estando “velho”. Isso me acompanhou durante muito tempo. Passei a não gostar tanto de revellions. Eles abririam as portas para a epifania do fim dos tempos. Cada ano uma porta. Cada porta um passo para o encurtamento da vida. Eu fui crescendo e passei a fazer a minha própria interpretação bíblica. A bíblia é tão enigmática, tão metafórica, tão cheia de dedos humanos que isso acaba acontecendo: cada qual interpretando de acordo com suas vontades, suas convicções e até mesmo interesses mais inconfidentes.

Já mais familiarizado com a matemática, descobri que o fim do mundo poderia ser no ano de 2999. Ainda estaria dentro da casa dos 2000. Relaxei e tratei de rever planos e despachar as dúvidas. Investi na longevidade em pensamento. Digo em pensamento porque os cuidados com a matéria corporal não recomendam que eu tenha tanta vida útil. Veio o século XXI, a terra continua inamovível, apesar de um tanto mais maltratada pelo homem, mas nada que assuste a ponto de acreditarmos que sua destruição é iminente. Confesso que fui feliz muitas vezes. Tive muitos problemas, nem todos que imaginava e também alguns que imaginei acontecerem comigo. As alegrias, entretanto, foram maiores. Planejo até ver netos crescerem um pouquinho…

De 1970 para cá eu me lembro muito bem de todas as copas do mundo. E é através delas que vou agora contanto meu tempo por estas bandas. Teremos no próximo ano mais uma e a de 14 será no Brasil. Não vai dar para ir a todos os jogos pois fortuna não fiz e creio não mais fazer até lá. Se bem que não é meu interesse ser mais afortunado do que já me considero com os afetos que construí até hoje.

A última previsão do flagelo final é para 2012. Justo quando eu resolvi que vou completar 50 anos. Será que o ano desse fim chega até setembro?

Desejo a todo mundo vida longa, muita saúde e paz em 2010 e por todos os anos que ainda nos restarem dentro desses quase nove séculos que ainda virão, segundo minha interpretação. Paz e bem.

Cacá

ARCANJO* ENTREVISTA PAPAI NOEL

23-12-2009

Arcanjo Isabelito Salustiano, o filósofo das ruas, estava passeando pelos shoppings e feiras da cidade em busca de assunto, já que desde o início do ano ele já sabe para quem pode e quanto pode gastar com presentes. Encontrou vários papais Noéis, tirou fotos, conversou muito e observou tudo, até o momento em que passou um cara e roubou um saco que estava ao seu lado. Provavelmente pensou que estivesse cheio de presentes ou dinheiro. Tudo caixa vazia. Enquanto as crianças e populares corriam atrás do sujeito, ele conseguiu essa rápida entrevista com o Papai Noel.

ARCANJO: Papai Noel, explique para nós a sua origem geográfica. Não precisa falar de sua onipresença, isso todo mundo sabe. Onde fica essa tal de Lapônia?

PAPAI NOEL: A Lapônia não é um paraíso fiscal como muitos podem pensar. O saco cheio que carrego é proveniente de muitas doações de gente honesta do mundo inteiro. E a Lapônia fica num lugar onde as renas nascem. Nem avião chega lá. Só as renas. E só as minhas. Rena é um bicho criado exclusivamente para Papais Noéis.

ARCANJO: A tradição cristã fala também que você é a representação do São Nicolau?

PAPAI NOEL: Era, meu filho, era! Pelo menos aqui no Brasil! Apareceu aí um certo Nicolau, de quem falam ser ele um juíz e derrubou a minha reputação de bondade , caridade e solidariedade. Já pensou eu ser tratado pelas criancinhas de Lalau? Vamos ficar só com o epíteto do “bom velhinho”, que já tá bom..

ARCANJO: E sendo assim, meio gordo, por que entrar pela chaminé?

PAPAI NOEL: Isso vai se modificando com o tempo, meu filho. Em primeiro lugar, são raríssimas as casas hoje em dia em que há chaminés. Aliás, o número de casas vem só diminuindo. Nos prédios onde não tem elevador, eu ainda tenho é que subir escadas em vez de descer pela chaminé. Eu tenho que tocar nos interfones e há lugares onde é difícil liberarem minha entrada. Tem tanto clone de papai Noel mal intencionado por aí… Quanto à chaminé, era uma forma de me aquecer, já que de onde venho é muito frio. Agora, além do sumiço das casas, e com esse aquecimento global, já estou querendo é mudar o uniforme, algo mais leve.

ARCANJO: Por que você não se adapta em cada região aos seus costumes? Por exemplo: esse negócio de neve no Brasil nesta época do ano, não cola com a sua imagem nem com o clima. Não acha muito americanizada a sua atitude? Você não estaria puxando a brasa para a sardinha dos americanos? Quer dizer, trazendo essa idéia de neve para cá em pleno verão? Eles já dominam tantas coisas no mundo… Será que o Natal não pode ser cada um com seu costumes e deixar o ecumenismo somente para celebrar o nascimento de Cristo? Não bastou esse tal de panetone que você espalhou por aqui? Deu até confusão numa certa cidade lá no planalto central do Brasil. Tinha um cara disfarçado de papai Noel sem o devido traje roubando dinheiro e dizendo que era para distribuir panetones aos pobres…

PAPAI NOEL: Bom, em assuntos internos de cada país eu não me meto, sabe como é, a minha imagem universal… Imagine se eu chego no Brasil, por exemplo e me visto de bermuda, chinelão, boné e camiseta regata? Aonde iria parar a minha credibilidade com as crianças? Fora o fato de que eu iria ter que ficar me explicando para a polícia. No mínimo iam me confundir com vagabundo. Ou então, num traje desses com um saco nas costas, eu ia era ganhar esmolas.

ARCANJO: Obrigado seu Noel. Quer deixar uma mensagem final para seus fãs no mundo inteiro?

PAPAI NOEL: Se quero! Tenho notado que em todo lugar as pessoas por mais que dêem e ganhem presentes, estão sentindo falta de mais presença do outro em suas vidas. Disfarçam as suas faltas e carências com artigos de consumo imediato mas não conseguem preencher seus espíritos com uma substância que não está à venda em nenhum lugar. Eu gostaria mais de ser outros símbolos. Queria simbolizar mais a tolerância em vez da indiferença. Mais a humanização em vez da coisificação. Mais a essência em vez da aparência. Queria que fôssemos mais sujeitos das coisas e valores e não meros objetos de dominação por falta de envolvimento real nos destinos de cada lugar, de cada país.

Eu desejo natais onde, em vez de meu sem graça HÔ,HÔ,HÔ, eu poderei escancarar um satisfeito HAHAHA!

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ARCANJO ISABELITO SALUSTIANO é um personagem

A lei do bafômetro

23-11-2009

Um susto que se emenda com outro a cada minuto se formos acompanhar o dia inteiro as notícias que chegam acerca de acidentes automobilísticos. Uma morte a cada 15 minutos segundo os últimos dados da polícia rodoviária. Acho que isso não é senão uma guerra sem que haja um inimigo declarado. Nenhuma é justificável, mas os números não se assemelham àquela guerra quando alguém elege um inimigo e resolve combatê-lo com armas. É muito maior e silencioso (ou esparso).

Os carros saem das fábricas cada vez mais velozes e potentes e caem nas mãos de motoristas cada vez mais furiosos. As rodovias estão cada vez mais desgastadas, mal traçadas, maltratadas. Sem contar que mais cheias, uma vez que a frota vem crescendo como cresce a população (acho que até mais).

É curioso como as pessoas se comportam enquanto pedestres e enquanto motoristas. A fragilidade manifestada à pé, de ônibus, trem ,metrô ou bicicleta, se transforma subitamente em agressividade quase descontrolada quando se assume um volante. É o poder que o carro (falsamente) imprime na pessoa? É a sensação de potência transferida diretamente do motor para o cérebro humano? Como pode se manifestar um comportamento solidário no trânsito sendo que em tudo somos indivíduos (particulares e individualistas)? E sendo o carro uma máquina auxiliar ao sentimento de (pre)potência, não se transforma em uma arma? E sendo uma arma não estaria sujeita ao mesmo uso que fazemos se fosse uma arma de fogo, pelo poder de letalidade? As armas em tese não nos protegem e ao mesmo tempo não intimidam o outro dependendo da circunstância e da intenção com que elas estão sendo usadas?

Existia uma lei que nas letras era rigorosa com os infratores das regras de trânsito. Esta lei não era cumprida e não havia punição exemplar. Criou-se lei mais rigorosa, também no papel, para punir com rigor aqueles que abusam do álcool para dirigir. Mas, se nem a anterior era cumprida, a sensação de impunidade não prevalece com a nova lei? Em Belo Horizonte há um caso exemplar do homem do pijama que virou notícia nacional: o mesmo cidadão foi preso por três vezes, em todas embriagado, não perdeu sua habilitação (ou a recuperou), foi preso, solto, preso, solto, preso, solto. Se houver condenação final, daqui a não se sabe quanto tempo, ela será cumprida em regime fechado ou transformada em serviços comunitários ou doação de cestas básicas? Isso não encoraja outras pessoas, mesmo as bem intencionadas a se arriscarem a cometer algum deslize?

A lei garante à pessoa recusar-se a fazer o teste do bafômetro sob o argumento de que ninguém é obrigado a produzir prova conta si mesmo. Ora, mas se não tiver bebido, qual o problema em se fazer o teste? Não haveria, também em tese, o que temer. E o direito coletivo, não conta? É mais fácil punir alguém que está prejudicando toda uma coletividade ou deixar toda uma coletividade à mercê de um sujeito em nome de um direito individual sem perspectiva da pagar algum preço pelo descumprimento de uma lei que (também em tese) deve ser igual para todos? Claro que o direito individual deve ser garantido sob pena de justiçamento sumário. Mas a questão é com relação à primazia do individual em detrimento do comunitário, quando se trata especialmente de situações que envolvem qualquer um , em qualquer lugar que venha a ser colocado sob o risco iminente de ser afetado em sua integridade física ou moral.

Se concordamos com o sistema jurídico em que estamos inseridos, que canais podemos usar para fazer prevalecer o efetivo direito coletivo sem prejuízo das garantias individuais? Quanto de nossa responsabilidade deixamos delegada sem que tomemos atitudes para mudar aquilo que não contempla a satisfação dos nossos direitos?

Cacá

Abandono

03-11-2009

“…Migalhas dormidas do teu pão

Raspas e restos

Me interessam

Pequenas porções de ilusão

Mentiras sinceras me interessam

Me interessam, me interessam…”

(Maior Abandonado, Cazuza)

Eu fui procurar uma senhora que vi no jornal. Lá na praça da rodoviária onde ela vive. O que me chamou atenção não foi o abandono. É que ela é da minha cidade, Itabira. Está aqui em Belo Horizonte por que os filhos a abandonaram ou ela abandonou os filhos. Não sei de quem partiu  a iniciativa. Isso virou algo tão corriqueiro nas ruas das grandes cidades que esses seres são como elementos da paisagem urbana. Como postes que se mexem e têm vontades de vez em quando. Só são notados pelo cheiro que incomoda, pelas necessidades fisiológicas que fazem nas ruas. Mas esse não é um tema que eu quero para uma crônica sobre abandono. É um caso crônico de polícia, justiça, das injustiças que já não fazem tanta diferença a quase ninguém. É assim, dizem quase todos: uns vencem na vida, outros não. Tem milhares de argumentos, de justificativas, umas mais sórdidas que as outras. Tem até teorias sociológicas, psicológicas de que a desigualdade é inerente ao ser humano.

Atualização da teoria de Malthus. Aquele inglês que disse no século dezoito que a melhor maneira de se acabar com a pobreza era eliminando os pobres através da fome, das pestes e das guerras. Em certa medida, mesmo que não esteja nos programas de governo do mundo, tem dado resultado. Outro dia eu vi um senhor dando umas moedas para um homem imundo e maltrapilho na rua. O homem estendeu a mão para agradecer ao senhor e este recusou. Depois se virou para os passantes e com aquela fisionomia de asco (acho que era asquerosa), comentou “ Tá louco, que nojo!”

Ainda não é dessa forma que queria tratar do abandono em uma crônica. Que saco!

A senhora da entrevista era articulada no linguajar, disse que possuía casa, já teve trabalho, mas resolveu ir morar nas ruas. Quando a pergunta era sobre os filhos ela desviava o olhar despistando as lágrimas que insistiam em derrubar a sua altivez momentânea e vacilante.

A mídia faz sempre esses trabalhos maravilhosos. Mas fica lá num canto de página. O que importa mesmo à grande maioria é a chamada de capa, a manchete (resulta em venda imediata). O resto cai no esquecimento, no abandono também.

Já reparou que com o advento do “politicamente correto” o menor abandonado ganhou o eufemismo de menino de rua? Fica até mais fácil mantermos o estado de abandono com menos culpa. A semântica ajuda bastante nos gestos.

O abandono não encontra redenção em nenhuma teoria. Não sucumbe à insensibilidade. Saí daquela cena. Na mente, uma definição doída: a fotografia da indiferença jogada ao relento.

Não consigo falar mais nada.

* Publicado no site Duelos Literários como tema do mês de setembro/09

Cacá

BOAS MENTIRAS

13-10-2009

Eu fiz xixi na cama até os doze anos. Não é mentira. Mentira foi o que me disse a Dona Mariinha, a comadre da minha mãe. Ninguém me entendia, ninguém me perdoava. Chorando em seu colo, veio a paz da cura, gotas de palavras injetadas na veia:

- Meu filho, olha a minha idade! Até hoje, de vez em quando ainda faço. Quis ser solidária, acabou sendo remédio. Nunca mais mijei.

Ensinam os bons manuais de comportamento humano e transmissão de caracteres antrópicos, que a mentira tem perna curta, que é feia, que desvirtua o caráter, que é isso, que é aquilo…

Mas, atire a primeira pedra. E com força e pontaria certeira quem não cometeu esse desvio moral aceito como paradigma universal? Ela é tão presente em nossas vidas que tem vezes que duvido da verdade. Todo mundo duvida. Já ouviu notícia boa? Já reparou nas respostas e nas caras de surpresa?

-Mentira!  Sério?

- Não, você está brincando…

- Duvido!

Como dizer a seu filho ou filha de cinco, seis anos que papai Noel não existe? Que é o papai ou a mamãe de verdade, barrigudo ou não, barbado ou não, quem compra o presente de natal? Mentira? Para o bem da imaginação e capacidade futura de não perder sonhos nem fantasiar. A vida depois é dura.

Houve um período no Brasil que  quem possuía carro ficava esperando todos os dias o Delfim Neto aparecer no jornal da televisão e dizer que a gasolina não ia aumentar de preço. Todos largavam o que estivessem fazendo e iam para a fila no posto mais próximo. Os postos fechavam cedo, ao anoitecer. De manhã, as bombas já estavam todas reajustadas. Acho que foi ai que nasceu o primeiro de abril, sei lá. Mas era uma mentira do mal.

Verdade seja dita: se não causar dano e for em benefício geral, diga a todos que minto.

ARCANJO ISABELITO SALUSTIANO

Cacá

AS MÃOS

25-09-2009

Eu tenho o hábito de culpar minhas mãos por muita coisa errada que faço. Sou estabanado demais da conta! Se deixo cair um copo, de quem é culpa? O choque levado na hora de trocar uma lâmpada simples: quem esbarrou no metal da boquilha? Aquele caldinho que insistiu  (e venceu) a boca e foi parar na roupa: quem se responsabiliza?. Na escrita, as falhas de incidência, os erros de ortografia, a falta de concordância: quem vacilou? Se não me ocorre a inspiração, só não bato nelas porque seria uma luta igual e poderia quebrar a ambas.

É isso mesmo. As mãos têm vida própria. Pelo menos as minhas quase nunca estão em sintonia com o pensamento. Abusivamente desobedientes e de uma autonomia de enlouquecer o cérebro. Esse não comanda muito. Costuma ter o coração ainda num posto de hierarquia à frente de si.

Já descobri, por exemplo, que elas pensam diferente quando escrevem à mão (não é redundância, é essa autonomia irritante) e no teclado. Com a caneta não há a preocupação em salvar nada. Ao contrario, só rabiscar e jogar no lixo. Claro que de vez em quando tem que ficar revirando para ver se não fiou algo para trás. Aí é o cérebro que ordena que elas mesmas vão lá buscar no meio daquele monte de papel embolado para selecionar uma frase, uma palavra perdida e que está fazendo falta ao conteúdo do texto. Já no teclado  elas costumam se perder. Se fossem daquelas boas de digitação como as que aprenderam nas remotas aulas de datilografia, davam descanso ao cérebro, olhando apenas para o teclado. Mas não, deixam minha cabeça igualzinha à daquele humorista do cara-crachá, tendo que olhar a digitação e o monitor ao mesmo tempo, conferindo.

E nas horas inoportunas? Sabe aquela coceira nos lugares mais inapropriados do corpo no momento mais indevido? Nas filas ou outros aglomerados humanos onde todo mundo censura? É um horror a tentação! Ficar remexendo os quadris para a caceira se resolver sozinha é pior. É coisa de maluco, de quem está passando mal ou é afetado nos modos.

Se tiver que ir a um analista por causa de manias, a primeira coisa que quero dizer é sobre o papel das mãos. A influência que elas exercem sobre nós. Contra a vontade ou favor, não importa. Não há mente equilibrada que controle as suas mãos para que obedeçam a todos os seus comandos. As mãos não têm esse equilíbrio que todos buscamos. Ou são submissas ou são rebeldes. Ou ainda uma mistura das duas coisas.

Aposto que as suas acabam de se virar para os seus olhos!

ARCANJO ISABELITO SALUSTIANO

Cacá

ARCANJO ISABELITO SALUSTIANO

28-08-2009

 

FILÓSOFO COM FORTE INCIDÊNCIA NO PSICOLÓGICO

A escolha do nome se deu pela primazia por originalidade. Não gosta de repetição, coisa que não fica bem para um filósofo que se preza. Arcanjo no céu até que tem muito. Agora, Isabelito Salustiano é mais raro. Ficou assim por adoção própria, mas não quis registrar em cartório.

De tanto subir e descer ladeira em Minas Gerais, olhando, ora de cima, ora de baixo as coisas e as pessoas, acabou formando-se em filosofia. Livros especializados leu uns três (caros demais); o resto completou na internet. Mas tem o lado negativo também: de tanto ficar sentado na frente do computador, adquiriu um a hérnia de disco. Hoje quando senta assim meio de lado, tem gente que acredita estar soltando gases. Na verdade, é para distribuir melhor a dor pelo corpo todo. Democracia filosófica aplicada ao corpo.

Mais mineiro que feijão tropeiro e broa de fubá, mais desconfiado que buraco de fechadura. Tem umas incursões pela psicologia. Herança de Adão (do sobrenome). Observa calado e pá, solta um palavrório afiado, um substantivo que fere ou engorda de alegria. Adjetivos solta poucos para não envaidecer os já emplumados e nem deixar de ser econômico. Não dá consulta por falta de alvará, mas dá palpite em tudo, sem cobrar. Só não lhe peçam palpite para jogo de loteria.

É um otimista acima de tudo. Acredita que o Brasil é o país do futuro, só não conseguiu ainda definir para quando.

Outra tese sua, indefensável dentro da odontologia: o maior sintoma da depressão humana é quando a pessoa deixa de cuidar dos dentes, mesmo tendo recursos financeiros. Não foi tirada de nenhum tratado de psicanálise - adaptou uma frase de seu irmão mais velho.

Para ele, o bem e o mal estão divididos em duas categorias: os muito maus e os domesticados por terem algo a perder. Esses últimos são chamados na sociologia de civilizados.

Não costuma fazer juízos de valor embora tenha sempre uma receita para tudo. Talvez um legado dos tempos em que foi cozinheiro. É tão verdade que sua máxima para crises existenciais, de relacionamentos amorosos, problemas políticos vem da cozinha e diz: “água e fubá bem dosados evita angu de caroço.” Ou caroço no angu para os mais perfeccionistas.

Passa a freqüentar às vezes, com uma alegria desnecessária, outras, com uma ironia involuntária, páginas gloriosas de análises, blogs, recantos e outros lugares onde haja necessidade. Gente para oferecer soluções para o mundo já tem demais. Precisa de alguém para embolar um pouco o meio de campo. A intenção é tão somente ajudar aqueles que acham que trocar de carro, de casamento, uma roupa nova, arranjar um emprego de servidor público, levar o cachorro no banco traseiro para passear, é toda a felicidade possível existente no mundo.

 Cacá

DEPRESSÃO MÉDICA

11-08-2009

Quem já atingiu uma certa maturidade costuma dizer que não se assusta com mais nada. Crianças e adolescentes são levadas a se adaptar aos ventos das modernidades. Os jovens é que sofrem a maior conseqüência de mudanças sociais bruscas. Talvez por que estejam em uma fase crucial de definições. Estudos, carreira profissional, geração de descendência. Ou seja, o futuro está presente a todo instante em suas vidas de forma urgente. No estágio atual das coisas, a correria, a busca por resultados imediatos e rápidos em tudo, as pressões decorrentes disso, vêm de algum lugar e afetam sobremaneira a todos. Uns mais outros menos.

Estou querendo falar de jovens médicos acometidos de depressão.*  Eles estão padecendo desse mal por causa destes e de outros fatores, o que é preocupante para o mundo leigo. Além das causas supostas já citadas creio que faltou uma que considero um achado. Nos últimos 20, 30 anos, os jovens saíam de casa em busca de sonhos, desvinculavam-se dos laços familiares mais cedo. Isso gerava um amadurecimento por volta da idade em que hoje eles mal terminaram a adolescência. De um lado, pais protetores, preocupados com um futuro digno para os filhos em meio à selvageria mercadológica, protetores quanto à violência cotidiana, colocam-nos sob suas asas até onde eles mesmos (os próprios filhos decidam qual é a hora de levantar vôo solo). A sociedade já foi menos rápida, menos competitiva, menos violenta. E não quero com isso estabelecer alguma verdade pronta, não sendo eu nenhum portador dela nem postulante. Apenas observador e paciente a qualquer momento.

Também não há aqui imputação de culpas, apenas circunstâncias e contingências. Enfrentar o caos da saúde pública, o abandono e as carências psicológicas da população, perder um paciente, como se diz no jargão próprio quando não se acostumaram com perdas durante a formação, podem ser mais um ingrediente nesse caldeirão de possibilidades. Mas que não deixam de causar um certo temor, isso é fato.

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* Pesquisas da Universidade Federal de Uberlândia (MG), Faculdade Médica do ABC (SP), do portal internacional Biomed Center, e reportagem da revista ISTOÉ, nº  2070/09.

Cacá