DESAVENÇAS

24-01-2012

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Os barulhos tecnológicos parecem gozar de mais prestígio aos ouvidos urbanos do que os antigos sons da natureza. Há quem prefira acordar com um celular apitando freneticamente do que com um galo cantando.

Seu Alberto e Antônio são vizinhos num bairro antigo daqui da cidade. Antônio veio do interior mas o interior não saiu dele. Ponto positivo no meu entendimento, pois o cultivo de alguns hábitos interioranos tempera a louca correria da cidade sem tempo para as pessoas prestarem atenção nas outras. Amistosidades estão se tornando uma coisa cada vez mais rara. Animosidades, por outro lado, são tão comuns que tem gente que até desconfia quando uma aproximação se mostra muito amável, a ponto de virar futura amizade. Pois era assim com os dois. Seu Alberto, nascido e criado em cidade grande, já morou no Rio, São Paulo, Porto Alegre e Salvador. Depois de rodar muitos anos, voltou e disse que logo que se aposentar (em breve) fica quieto por aqui mesmo, já que é de BH e a família nunca o acompanhou pelos trechos por onde circulou a trabalho.

Antônio cultiva uma bela horta em seu pequeno quintal e não foi uma ou duas vezes que distribuiu verduras para a vizinhança. A família de Seu Alberto sempre recebeu muitas couves, alfaces e cheiros verdes fresquinhos do vizinho do lado. Bom sujeito, dizem outros vizinhos. Ele mais o seu Alberto tomavam uma cervejinha toda sexta feira num boteco perto de casa e contavam longas histórias de vida e família. Agora estão numa querela na justiça. E sabe o porquê? Por causa de um galo.

Antônio resolveu incrementar seu acanhado sítio urbano de pouco mais de um are, fez um pequeno galinheiro e cria umas galinhas caipiras para consumo próprio e ovos. Galinha poedeira que se preze não vive sem um galo na sua freguesia e o Antônio caprichou na escolha. Um cantador de primeira, pois segundo os galistas mais entendidos, quanto mais potente o canto, mais eficiente o galo na cobertura do galinheiro inteiro, seja quantas galinhas possuir. Seu Alberto queria que ele matasse o bicho. Matar o galo é extermínio criminoso de animais, defende-se o Antônio.

Nerso da Carpitinga, personagem caipira do humor televisivo tinha o seu Frederico, criado dentro de casa tamanha a estima do dono. E quem não se lembra da Giserda do Chico Bento, companheira de cocoricós e andanças com ele pelo sítio criado pelo Maurício de Souza? Chico fazia até declaração amor pela Giserda.

Seu Alberto e o Antônio viraram inimigos. Seu Alberto, apesar de acordar cedo para o trabalho não aguenta a cantoria do galo, normalmente anunciada uma hora mais cedo do que a sua necessidade. O juiz propôs um acordo amigável solicitando ao Antônio fazer uma cobertura com isolamento térmico, pelo menos para colocar o galo até o dia amanhecer por completo. Ele negou-se alegando cárcere privado e maus tratos aos animais. Seu Alberto mantém-se irredutível: o galo tem que ser silenciado de um jeito ou de outro…

Depois desses argumentos o juiz nem cogitou a segunda hipótese – o plano B - que era a de cozinhar o galo e fazerem um almoço de confraternização das duas famílias. Encerrou a tentativa de conciliação e marcou a sentença para daí a alguns dias (se o galo não sofrer um atentado até lá).

José Cláudio Adão – Cacá

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Na alegria e na tristeza

12-01-2012

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Que Sócrates era um sábio isso quase todo mundo sabe. A sua frase mais conhecida é “sei que nada sei”. Sabido que nem ele só, escamoteava seus conhecimentos através da negação. Sua mãe, parteira, ajudava dar à luz os nascidos de seu tempo. Inspirado nela, Sócrates desenvolveu um método que a filosofia chamou pelo difícil nome de maiêutica. Consiste basicamente em arranjar um interlocutor, enchê-lo de perguntas e ir elaborando novas perguntas a partir das respostas. Entre uma resposta e outra ele ia parindo novos conhecimentos. E deixava o cidadão cheio de nuvens na cabeça. Acredito que não havia ninguém que depois de uma boa prosa com Sócrates saísse a mesma pessoa. No mínimo ia querer mudar, senão o mundo, pelo menos a si mesmo. Afinal, “conhece-te a ti mesmo” é outra frase bastante conhecida do grande filósofo.

Descobri que pelo menos perguntar é o que mais gosto sem fingir que nada sei, pois não sei mesmo e fiquei reparando como é que a gente trata de forma diferente as alegrias e as tristezas. Na alegria eu já notei que encontra-se pouca gente para compartilhar e na tristeza ou alguma dor tem-se uma boa dose de solidariedade. Não que a alegria necessite de amparo. Mas será que o mundo é tão sofrido assim que só precisamos estar solidários do lado de alguém apenas quando essa pessoa está mal? Ou será que uma alegria incomoda muita gente?

A dor costuma ser medida em termos de comparação. Quem nunca ouviu aquela expressão: “tem gente muito pior do que você”(?) A alegria pode ser compartilhada apenas no flagrante e mesmo assim para o alegrado dura apenas aquele instante mágico, especial? Se a tristeza é senhora como já disse um poeta, necessitaria de cuidados maiores? Também houve quem dissesse que a alegria é como criança. Então, não precisaria de muita atenção e ajuntamento em torno de si? A alegria é egoísta? Por que na dor a gente deixa entrar o mundo em nossa casa, chama o universo em socorro e abraça tudo com emoção comovida? Na alegria só costuma chamar os mais chegados, amigos e familiares, quando muito. Na alegria a gente costuma até pagar a conta da comemoração. E na dor? Não costuma socializar a emoção e a conta também? A comoção que nos atinge quando estamos ao lado de alguém triste não é um sentimento oposto a quando estamos ao lado de alguém alegre? Quer dizer, não nos envolvemos a mesma forma em ambas as situações. Por que?

Eu tinha escrito esta crônica num dia de tristeza. Acontece que minha alegria costuma ser maior ou eu dou menos importância à tristeza. Então guardei e nem sei o motivo de não publicá-la. Agora, lendo notícias encontro algo curioso. Elegeram a cena mais triste de todos os tempos nos filmes* e, na pesquisa, descobriram algumas coisas inusitadas, como o fato de as pessoas gastarem mais dinheiro quando estão tristes do que alegres. Assim, termino com bom humor: será que é por isso que as festas 0800 estão cada vez mais escassas?

* A cena em questão é a do final do filme O CAMPEÃO, de Franco Zefirelli

José Cláudio - Cacá

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OBSTÁCULOS DA LÍNGUA

26-12-2011

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Na sua primeira ida ao parque foi com o sono atrapalhado num domingo de manhã, mas conformado, afinal, queria sempre aprender coisas que o ajudassem a melhorar de vida. Ouviu um anúncio meio atravessado do concerto de uma orquestra e lá se foi com caderninho e tudo para tomar nota de cada detalhe. O certo seria dar ouvidos a cada nota. Quando se apresentaram os músicos abrindo com Bolero, de Ravel, já começou o xingatório em alto som:

- Mas cadê a aula pra gente aprender?

O conserto que ele queria não seria ali e mesmo assim instrumentos musicais quando dão defeitos há que se ter alguém muito sensível e afinado com música para fazer a manutenção. De qualquer forma terminou de ouvir o concerto até o final pois acabou gostando da música. Já era algo mais no seu currículo de aprendiz: música clássica faz bem aos sentidos. Ia apurando-os, prometera a si mesmo.

Da segunda vez que o inusitado confirmou a sua sina foi quando precisou entregar uma encomenda lá na cidade de Igaratinga onde nasceu. Chegando à casa da destinatária, a placa bem grande no portão advertia: “tome cuidado com os cães” e ele já foi logo abrindo e ao se deparar com dois bem grandes, do tipo pastor alemão, tentou cuidar com carinho fazendo um afago na cabeça de um deles. Foram mais de 180 pontos ao todo pelos braços, rosto e pernas, segundo o pessoal do posto de saúde onde foi atendido E depois alguém explicou que o cuidado com os cães significava não descuidar. Foi nesta época que Manoel Umbelino ganhou o apelido de Mané dos Cachorros.

Um boletim de ocorrência curioso foi a última notícia que tive do Mané: preso por derrubar todas as árvores de uma rua, só não concluiu o arboricídio* porque alguém chamou a polícia diante do comportamento estranho daquele homem com sua moto-serra. A companhia de eletricidade da cidade estava fazendo uma campanha educativa para prevenir acidentes na rede elétrica e colocou anúncios por toda a cidade, especialmente nas áreas mais arborizadas. Uma frase dúbia, convenhamos:

NUNCA PODE ÁRVORES PERTO DA REDE ELÉTRICA.

O verbo transitivo direto “podar” no modo imperativo foi interpretado erroneamente como sendo o verbo transitivo direto “poder”. Deu cana.

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* Arboricídio: extermínio indiscriminado de árvores (um neologismo que criei)

osé Cláudio Adão - Cacá

“A CURA DA VELHICE”

26-12-2011

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Começa a nascer a partir de agora a geração de vida ainda mais longa. Segundo um cientista britânico, os novos bebês tem possibilidade já garantida de comemorarem daqui a 150 anos o seu aniversário em pleno gozo de saúde física e mental. E daqui a uns poucos anos, começarão a nascer os humanos quase milenares. É isso mesmo, novos Noés e Matusaléns.

A ajuda das células tronco, a neurociência com a ajuda da mecânica e a eletrônica vão permitir que os novos humanos sejam verdadeiros robôs em termos de duração física. Imagino que não iremos mais ao médico, por exemplo, para consultas e sim para manutenção. Os hospitais-oficinas farão as revisões não mais por sintomas ou por envelhecimento natural, mas por horas de vida. Provavelmente teremos um manual de revisões. Só não queiram que nasçam pessoas com garantia genética. E ainda não temos quem nos defenda de uns males cuja medicina e a ciência não conseguem a achar cura. A bala perdida, por exemplo, ainda não está no manual. Só se pegar de raspão, caso em que poderá ser feita uma lanternagem no local. A falta de tolerância também não foi curada. A psicologia está perdendo terreno para a pragmática. Tem funcionado mais para a cura de traumas do que na prevenção e no tratamento de depressões e melancolias.

Tem um lado positivo nisso: a gente não envelhecendo, fica livre do risco de se tornar um estorvo, um cancro social. E quanto mais dinheiro tivermos, mais pessoas vão querer ficar conosco vivos para a sua sustentação ou deleite. Isso se não nos eliminarem para se apossarem do patrimônio. Quem vai nos defender disso aos cem, duzentos, quatrocentos anos? E será que está entre os motivos do cientista chamar seu feito de cura da velhice?

Portanto, tratemos muito bem das mãos e das vozes para não ficarmos com calos de tanto cantar parabéns pra você.

José Cláudio Adão – Cacá

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Fonte: http://umbuzeiroemrevista.wordpress.com/2011/07/04/cientista-preve-cura%C2%B4-para-a-velhice-e-diz-1%C2%BA-a-ter-150-anos-ja-nasceu/

Estatísticas

22-11-2011

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Gosto muito de estatísticas, apesar de ter um receio danado de fazer parte delas em determinadas situações. Por exemplo: minha morte seria apenas um traço na estatística populacional. E isso é a comprovação de que a minha vida também é. Portanto, prefiro entrar naquelas em que seja revelada alguma coisa boa que eu puder fazer para a humanidade. É a única chance que eu tenho de mudar meu traço na morte e, portanto e também, mudar a minha vida. Estatisticamente, aliás, um bem à humanidade não passa de um traço, seja que bem for esse. Já um mal costuma apresentar cifras elevadas dos “por cento”. Acho que o exemplo mais gritante para ilustrar isso seja o das guerras. Normalmente causadas por uma meia dúzia de pessoas alopradas, onipotentes, quiçá malucas (um traço na estatística), envolvem um grande percentual de humanos e matam um outro grande percentual de gente.

A última estatística (que estarreceu uma pequena parcela de gente) foi a divulgação de dados de levantamento feito por um banco suíço de que 1% da população mundial controla 40% de toda a riqueza produzida no mundo*. Isto sim, é estatística para derrubar qualquer conceito decente de democracia capitalista Ela pode explicar talvez o motivo (pelo menos o maior de todos) das mazelas do mundo, já que somos movidos pelo dinheiro. E olhem que os suíços entendem muito de números, não só pela precisão dos relógios que os deixaram famosos como também por guardaram carinhosamente uma boa parcela do dinheiro dos ricos do mundo em seus bancos chamados de paraísos.

Outra estatística ruim de se fazer parte é a da maioria do eleitorado. A história da nossa jovem, mas capenga democracia mostra que aqueles que venceram sempre corresponderam à maioria dos votos que receberam mas não corresponderam à maioria dos desejos de quem os elegeu. Todos governaram e legislaram mais em causa própria e para quem os financiou as campanhas do que qualquer outra coisa. Um percentual baixíssimo de privilegiados e ricos. Basta voltar à estatística dos suíços para confirmarmos esta afirmativa.

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* - 231 trilhões de dólares é a estimada riqueza existente no mundo

- Apenas 37 milhões de pessoas tem juntas 89 trilhões de dólares

- Sobram 142 trilhões para serem divididos por 6 bilhões e 900 milhões de pessoas

- Se parassem tudo agora como está e resolvessem dividir o bolo igualmente com o resto da população, sobrariam 21 mil dólares para cada um. O preço aproximado de um carro popular.

José Cláudio Adão - Cacá

Fonte: http://migre.me/6dk7N

DIA 11/11/11

11-11-2011

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Segundo um dos e-mails que circulam por ai, 2011 é o ano da sorte. A soma dos dois últimos dígitos do ano em que a pessoa nasceu mais a idade que esta pessoa terá este ano será sempre 111 e isso significaria boa sorte. De acordo com os especialistas de previsões naquele meio termo sobre passado, presente e futuro, o mês outubro teria 5 sábados, 5 domingos e 5 segundas feiras, o que acontece a cada 800 anos. E teve mesmo. E daí? E daí que eu não ganhei absolutamente nada, além de luto. Como boa sorte atualmente está sempre ligada a dinheiro, fui lá eu fazer a minha fezinha nos números para novembro, quem sabe?

Mas há também quem o associe ao diabo (illuminati, no jargão dos crentes em teorias conspiratórias). Quem serão os senhores do mundo que irão nos dominar a todos? Continuará o Tio Sam ou mudará de mãos? Teve quem fizesse tanto malabarismo numérico que conseguiu arranjar um jeito da soma atingir 666, o número do capetão. Isso seria prenúncio de urucubaca (se bem que com esta crise na Europa e EUA, sei não!).

Em 10/10/10 houve uma onda diferente. Na Ásia, principalmente, teve uma enxurrada de casamentos muito acima da média normal. Para qual finalidade não me perguntem, mas a chance de a população aumentar ainda mais é tão certa quanto os mais de 7 bilhões de pessoas que estão no mundo atualmente. Porém, havia numerólogos dizendo que o resultado da combinação dos números dava um sinal de que estas uniões estavam fadadas ao término caso não houvesse muito prazer sexual, o que piora ainda mais as perspectivas do mundo. Podem deixar um rastro de abandono de crianças oriundas dessa fornicação desenfreada se os pais que as gerarem não forem muito responsáveis.

Sobrevivemos a 1/1/1, a 2/2/2, a 3/3/3, a 4/4/4, a 5/5/5, a 6/6/6 (esse era o demo reinando por 365 dias?), a 7/7/7, a 8/8/8 a 9/9/9 e a 10/10/10. Agora, se passarmos desse fatídico 11/11/11, teremos chance de nos salvarmos do 12/12/12, mas não se esqueçam do dia 21/12/12 que é outra data também marcada para o mundo acabar. Portanto, paguem em dia seus carnês e aguardem a recompensa no paraíso.

Até agora (hora desta publicação), ainda não fiquei rico e nem fui vítima de nenhuma catástrofe. Se amanhã eu estiver vivo (seja rico ou na costumeira pobreza) falarei do que se espera para 12/12/12. Por via das dúvidas, o melhor é ficar atento com os hackers, pois eles gostam desses números redondinhos para espalharem vírus nos computadores. Aí vocês vão pensar que eu morri mesmo ao não conseguirem ler as bobagens que escrevi.

José Cláudio - Cacá

As crianças denovo

13-10-2011

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Criança era um problemão na idade média. Filhos de servos tinham que crescer logo para ajudar os pais na lida e formarem-se bons servos. Desde muito cedo já trabalhavam nas lavouras e serviços domésticos nos feudos. Assumiam os lugares dos pais que morriam muito cedo por falta de condições sanitárias e de exaustão no trabalho. Não brincavam, não havia infância.

Os filhos dos nobres eram um estorvo quando pequenos. Não serviam para nada além de dar despesas. Mas brincavam pois sempre tinham um servo, uma mucama, um escravo que lhe serviam para todos os fins, inclusive o de ocupar o tempo não perturbando a ordem nos castelos medievais tão acupados com a administração do feudo e com as festas proibitivas para pequenos. Isso até os seis, sete anos, no máximo. Daí para frente o seu mundo era o mesmo dos adultos. E as relações pais e filhos não eram cercadas de afetividades de pais e filhos.

Na classe intermediária, onde situavam os artesãos e mestres de ofícios, elas eram aprendizes de alguma profissão desde a mais pouquinha idade.

Veio a revolução industrial e demandou muita mão de obra. As crianças foram necessariamente incluídas, cumprindo jornadas de trabalho de adultos. Menos infância.

Passadas duas guerras mundiais, chegou-se a um consenso (na marra) de que precisavam deixar as crianças de fora disso tudo. Novas tecnologias também contribuíram para seu alívio, uma vez que máquinas começaram a substituir o trabalho humano. Então não foi nenhuma benesse a declaração de direitos da criança criada pela ONU em meados do século vinte. Foi um tremenda média que fizeram para os pequenos e também com os pais para que pudessem trabalhar muito, muito e muito pois já não aceitavam mais passivamente tanta exploração no trabalho. Tinham que receber contrapartidas dos estados nacionais e das grandes indústrias que se expandiam na Europa e EUA..

Mas foi benéfica de qualquer jeito. A minha geração, por exemplo, pode ter uma infância bastante livre, leve e solta (apesar de ainda ter que começar a trabalhar muito cedo, quando não se era de família abastada. Fora isso, a infância durava até por volta dos 14 anos.). Hoje, criou-se um amontoado de direitos e leis protetoras da infância mas vejo as crianças perdendo-a muito rapidamente para o medo, para a pressa, para o despreparo, para a violência para a corrida atrás de dinheiro por parte dos pais. Elas tem acesso a tudo e menos tempo para brincar de ser crianças. Estranho, não?

Para quem quiser saber mais sobre a história da infância indico:

Philippe Àries,. História Social da Infância e da Família. Rio de Janeiro: Zahar. (1973)

A história das crianças no Brasil, org. por Mary del Priore

José Cláudio Adão Cacá

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ARMAS DE FOGO

06-10-2011

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Eu já portei uma arma de fogo. Quando tinha 22 anos, fui a uma praia no litoral paulista e meu irmão emprestou-me o carro dele. Deu-me um revólver, dizendo que lá podia ser perigoso e que era bom levá-lo só por segurança. No primeiro momento fiquei tão atônito com a oferta que quase instintivamente desisti da viagem. Depois, rapidamente foi crescendo dentro de mim um poder imaginário misturado com pavor e tive, acordado, pesadelos atraindo desgraças pro meu lado. Senti uma mistura de poder divino e satânico enquanto a manuseava. Quando a coloquei no carro para seguir meu caminho senti um medão danado. Medo de ter que utiliza-la e não saber depois se o poder que ela havia me conferido seria meu infortúnio para o resto de minha vida ou algo que me fizesse sentir mais cidadão desse mundo. Se usasse em legítima defesa ou se abusasse do meu poder letal só depois é que as coisas iriam se definir na minha mente e no julgamento que ia ser feito de meu ato. O fato é que a posse de uma arma mudou completamente a noção das coisas em minha cabeça.Eu fiquei me lembrando disso depois que passei a estranhar a Scotland Yard, a famosa polícia inglesa. Desde o assassinato de um brasileiro (Jean Charles) que eu penso nesta força policial invejada pelas populações das grandes cidades do mundo e almejada pelas polícias idem. Eles até pouco tempo atrás não usavam armas de fogo nas ruas. Tinham outros meios de combater a pouca incidência de violências em Londres. O que mudou? A polícia, as pessoas ou a cena urbana? O mundo não está ficando mais violento do que já foi. O que eu consigo enxergar agora, depois de passear pela história é que no passado a violência era mais uma prerrogativa reivindicada por alguns mandatários (reis, estados nacionais, forças milicianas e guetos). Agora me parece que disseminou para fora dessas forças e se instalou dentro do indivíduo sem muito controle. Quando não é de fato, pelo menos em potencial. Com isso aparecem as soluções imediatistas. É muito mais cômodo armar a população e deixar que ela resolva a seu modo os problemas de violência pessoal do que investir numa educação para a paz e a fraternidade (na prática não é assim, bem diferente dos discursos oficiais?). Há também a pouca confiança nas políticas públicas de segurança contribuindo para aumentar o ímpeto da auto e legítima defesas. Por isso eu continuo com muito mais medo de manusear uma arma hoje do que eu tinha lá nos meus aventureiros 22 anos. A forma banal com que a vida tem sido tratada me faz preferir evitar lugares, situações e eventos que me instigariam a reagir a uma ofensa ou afronta do que pegar uma coisa tão pequenina mas tão destruidora.

José Cláudio Adão - Cacá

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EDUCAÇÃO FINANCEIRA

28-09-2011

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O Banco Central anunciou mudanças nas regras do uso dos cartões de crédito a fim de regular o que considera um mau uso por parte de algumas pessoas. Devem ser muitas, senão não seria necessário. Um dos motivos que levo em consideração aqui é a alegada tentativa de evitar o aumento do endividamento das famílias.

Já falei em outra oportunidade que me considero um homem financiado. Nasci devendo, vivo na pendura e espero pelo menos deixar algum saldo positivo para as minhas exéquias. Afinal, quem ficar não terá a obrigação de pagar eventuais dívidas que eu fizer por e para mim mesmo. O que a gente aprende de limites que a vida impõe nem sempre leva em consideração o que diz respeito a gastos. Educação financeira quase nunca é assunto tratado entre pais e filhos nem escola. Seja pela total falta do que educar por parte de quem não possui o essencial ou sobras, seja por quem possui em excesso e não se importa com as consequências de seus gastos.

Como sempre estamos em busca de equilíbrios variados, o meio termo com o dinheiro é fundamental. Minha mãe era exemplo de parcimônia. Já o meu pai o perdularismo em pessoa. Não pude receber essa parte importante do ensinamento. Sim, a grana era muito curta e não lhes sobrava preocupação nem tempo quanto ao ensinamento aos filhos. A responsabilidade geral que aprendi, no entanto, me fez ter uma relação com o dinheiro que me permitiu não ir aos céus quando tinha fartura nem ir à lona nas épocas de vacas magras. E na medida em que iam aumentando as responsabilidades com a minha própria prole, a busca pelo equilíbrio financeiro foi ainda mais uma constante. Isso, no entanto, se deu de forma por vezes traumática. Outras, eufórica. E sempre, sempre, sempre me fazendo trabalhar feito o cavalo Sansão para não deixar escorregar de minhas mãos o leite das crianças.

A tentação para o gasto nessa sociedade que tem um olho no dispêndio e outro no consumo é infinitas vezes superior ao poder de gastar para quem quer que seja. O mundo pertence ao dinheiro e a ele dedicamos reverências, louvação e submissão. Pelo menos é o que está nas linhas, entrelinhas e cadernos inteiros de todas as matérias que nos ensinam durante a nossa jornada diária. A máxima que vigora disfarçada é: ter ou não ter, eis a precisão.

José Cláudio Adão - Cacá

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Os domésticos

12-09-2011

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Eu me esqueci de anotar a fonte mas não do fato. É que outro dia li num anúncio de classificados homens se oferecendo para serviços domésticos em casas dos outros. Não é o marido de aluguel, muito comum em alguns lugares e também chamado de “faz tudo”, desde que esse tudo seja serviço de homem na nossa cultura ainda machista. Bombeiro, eletricista, encanador, jardineiro, gambiarreiro - aquele que dá aquelas “ajeitadas” pras coisas funcionarem direitinho por algum tempo. São homens topando as vagas que antes eram exclusivas das empregadas do lar e das diaristas. Homens fazendo almoço e janta, lavando e passando roupas e fazendo faxina.

A mulher tem atingido o seu patamar máximo de distanciamento das coisas da casa, quando dá. Claro que a maioria ainda continua acumulando a função de mãe integral, trabalhadora formal, autônoma ou empresária e ainda cuidando da casa e dos filhos. Até que com relação ao cuidado com os filhos já há bastantes homens envolvidos nesta divisão mais do que justa de responsabilidades. Mas tem uma coisa que chama a atenção: tanto mães quanto pais na maioria dos melhores lares daqui e acolá continuam educando os filhos de forma diferenciada. As meninas de um jeito, os meninos de outro. Mesmo que as meninas não brinquem tanto mais de boneca e de casinha (a Barbie trabalha fora?) e não haja uma divisão tão direcionadora como havia antes, é com os meninos que as coisas precisam mudar mais, eu creio. É raro vê-los sendo ensinados a arrumarem a própria cama, ajudarem a lavar ou a secar uma louça, a lavarem a própria cueca, a darem uma varridinha de vez em quando (pelo menos no próprio quarto, nem que seja só mesmo para ir pegando um traquejo e ir aprendendo a se virarem sozinhos, no sentido bom da independência). Os ensinamentos continuam sendo transmitidos tal como dizia o Belchior: “apesar de termos feito tudo o que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.” Nesses casos, as aparências não enganam não.

Aí fica uma perguntinha: será que esses homens vão topar acumular funções também ao voltarem para as suas casas no fim de um expediente?

José Cláudio Adão – Cacá