Na cabeça

26-07-2010

O que vem por aí em termos cerebrais é fascinante e ao mesmo tempo um assombroso novo modo de viver a vida. Não se trata do desvendamento dos mistérios da mente ainda, apenas da massa encefálica, aquele monte de miolos-moles cinza e branco. Eu que já estou acostumado a pensar com a minha própria cabeça (e não estou falando de influências de outras) não me assusto com muitas coisas. Afinal, a gente se acostuma a tudo, não é mesmo? Basta vir uma novidade, maciçamente propagandeada e, uma resitenciazinha aqui, outra ali, e logo, logo, todo mundo adere dizendo que é evolução. Há pouco tempo tinha um cara que ficou famoso na televisão e cujo bordão que lhe garantiu uma fama era “faz parte”, quem não se lembra? Esse irritante conformismo sem explicar nada e se contentar resignadamente com tudo é o maior símbolo do senso comum traduzido em expressões de domínio popular. Condensar todo o pensamento manipulado no “faz parte”.

Bom, eu assisti a um programa no canal Discovey Science que tratava do cérebro humano. O que os cientistas estão fazendo para escarafunchar os escaninhos da massa encefálica não é brincadeira, não! Depois de descobrirem cada setor e dar-lhes nomes tipo córtex, lobo, cerebelo e outras partes que esqueci, já sabem a função de muitas coisas, como agem de forma independente o lado direito e esquerdo, mas solidários e integrados. Agora estão conseguindo isolar alguns mecanismos responsáveis por certas coisas que acontecem na vida da gente.

No programa, por exemplo, mostraram uma cirurgia onde foi extirpada uma pelezinha, um pedacinho estragado que era responsável por ataques epiléticos. A pessoa se curou e nunca mais precisou de medicamentos. Descobriram áreas onde aconteceram traumas, seja psicológicos ou fiscos e eliminaram com uma eficiência de dar gosto. Quanto mais vão escaneando e digitalizando os procedimentos, mais avanços vão conseguindo. Chegaram ao ponto de acompanhar uma mulher em pleno orgasmo através de uma ressonância magnética. Muito legal o processo. O cérebro dela estava doidão no momento clímax. Tem razão, pois os cientistas afirmam que, ao contrário do que muita gente pensa, o maior órgão sexual que possuímos não está do pescoço para baixo. É mesmo o fantástico cérebro. Disseram ainda que esse é um problema que não vai mais acontecer daqui a pouco tempo. Isso combinado com o fim das broxadas masculinas graças aos comprimidinhos azuis vai aposentar de vez a frustração sexual de quem se interessar. Desse modo, o “comandante” vai, daqui a pouco, poder ser programado. É o homem imitando a máquina, quem diria!

Imagine a raiva poder ser controlada por chip no lugar de uma massa revolta, amansada por fortes remédios que causam vários efeitos colaterais? O esquecimento em quem você votou nas últimas eleições, de onde colocou as chaves ou do horário de um compromisso sem necessidade de anotação será coisa do passado. A fome, o medo, a angústia, a tristeza, a saudade (será?). Tudo isso controlado por um simples aperto de botão de um controle remoto (o único inconveniente que vejo ate agora é ter que andar com mais um aparelho no bolso ou na bolsa).

Só com o pensamento ainda não conseguiram mexer com a ajuda da tecnologia.. Mas com o senso comum do jeito que é, vai ser necessário?

Autor: José Carlos Adão - Cacá

http://uaimundo.blogspot.com

Saudade: pensa que só em nosso idioma existe palavra que é só nossa?

15-07-2010

“Para o povo boro, na Índia, onsay significa “fingir amar”; ongubsy, “amar de verdade” e onsia, “amar pela última vez”. Entre os albaneses, cuja fixação por bigodes (sim, bigodes) ganha vocabulário preciso e diversificado: madh (bigode espesso), holl (fino), rruar (raspado), glemb (com pontas afiadas) e por aí vai. São mais de dez tipos, além de 27 termos dedicados a sobrancelhas.

A palavra bakkushan, do japonês, encontraria equivalências nas gírias machistas “raimunda” e “camarão”, já que quer dizer “uma jovem que parece bonita vista de trás, mas pode não ser quando vista de frente”.

A palavra-título tingo, que em rapanui (idioma polinésio da Ilha de Páscoa, território chileno ao sul do Pacífico) é “pedir emprestadas uma a uma as coisas da casa de um amigo até não sobrar nada”” – esta serve para alguns vizinhos sem desconfiômetro…

Que friiio!

Quando me mudei para São Paulo, inicialmente hospedei-me em um hotel no centro da cidade. Com emprego no Ipiranga, químico numa fábrica de óleo, mudei-me para uma casa mais perto da firma, cujo fundo, onde localizava meu quarto, dava para a loja Mesbla, na Avenida do Estado. Esse local era o primeiro local em São Paulo em que a enchente começava – e como havia enchente!… Um único pingo-d’água já inundava a frente da casa!

Num dos primeiros dias de hospedagem, comprei um jornal e o coloquei em cima do guarda roupa. A noite esfriou barbaridade. Depois de algum tempo dormindo, acordei-me apavorado com o friiio – o cobertor era um bicicleta: se puxasse para o lado da cabeça, descobriam-se os pés, e se cobrissem os pés, desprotegeria a cabeça. Lembrei-me do salvador da péssima situação: o jornal em cima do guarda-roupa!… Que decepção!… Os vidros da janela cheios de gelo, e nada de jornal no guarda-roupa… Que friio! Frio por todo lado do corpo – o corpo inteiro! Que noite longa! Pensei nos mendigos nas ruas… Telepatia ou mau pressentimento? Frio tão grande, que bateu recorde em muitos anos: menos um (-1) grau centígrado. Morreram quarenta e um moradores de rua.

A arrumadeira jogara o jornal no lixo!

No dia seguinte, papai foi visitar-me e, bem perto da fábrica, foi atropelado por um táxi. Encontrava-me na casa de meu concunhado Edson, médico, que recebeu a comunicação de que papai estava em um hospital. Encontramos o papai em um quartinho debaixo de uma escada, tremendo de friio e com ….  cerebral. O Edson providenciou um apartamento e logo depois chegaram alguns de meus irmãos, que fretando um avião, levaram-no para Belo Horizonte.

Von Brown

Em São Paulo, levantei-me cedo. A Tatiana acabava de nascer, uns dez dias antes, e acordava chorando, como toda criança. No escuro, a mãe pegou o remédio e colocou em sua boca. Apesar de pai novo, observei que toda a vez que dava algo de novo para a Tati, não gostava - fazia careta pelo alimento desconhecido. Olhei e verifiquei que a mãe, escuro ainda, deu-lhe o remédio de ouvido.

Telefonei para meu concunhado Edson, médico. Mandou-me deixá-la em observação e avisar-lhe de quaisquer anormalidades.

Logo depois viajei preocupado, pela Dutra, pista única e perigosíssima, a serviço do DAEE, Departamento de Água e Energia Elétrica do Estado de São Paulo. Contactos com o INPE, Instituto Nacional de Pesquisa Espacial, em São José dos Campos. Neste dia tive oportunidade de conhecer e cumprimentar pessoalmente um dos maiores cientistas de todos os tempos: Wernher von Brown, o dos foguetes e da bomba V-2. Assisti a uma conferência dada por ele.

A Tati passou o dia toda mole; quando cheguei, dei-lhe uma pitada de sal-de-fruta. O concunhado ficou bravo! Mas ela melhorou logo.

Benedito Franco

Você é um doador de sangue, de medula ou de órgãos?… Pode e deve ser… acredite! Já tentou? Procure…

Mãos de Deus

02-07-2010

Marcelo Adão é um jovem pintor de belas telas. Eu divido a pintura em telas de retrato e telas de introspecção expressa. As evidências numa paisagem, torso, rosto ou objeto são de leitura imediata, gostando-se ou não à primeira vista. As de introspecção são mais complicadas de se gostar antes de algum entendimento. Tem gente que já fala logo de cara que adorou tal quadro, sem sequer se dar conta daquilo que está admirando. É chique, dá um ar de conhecimento e erudição. Entendo muito pouco de iconografia e iconologia*. Uma raspadela que pude absorver nos conceitos e métodos em umas aulas no semestre que fiz de história da arte na época da universidade.

Há uma tela do Marcelo na casa do meu pai que é um sol com formas bem próximas da visão, bem colorido e muito impressionante para os sentidos. Daquelas telas que não conseguem passar despercebidas onde quer que estejam ornando. Me parece uma expressão mais latente de seu desejo de elucidação da vida, de clareamento das existências, da busca de uma liberdade que não encontra limites nos obstáculos onde os raios do sol tentam penetrar. Assim eu o vejo.

Conversávamos ouvindo Bach e depois  Handel, Puccini, Mozart e aproveitamos para falar do quanto eram inspirados os compositores clássicos. Parecendo um toque de Deus em suas mãos na hora de compor. Foi nesse instante que ele afirmou ser isso mesmo o que ocorre com os artistas que atingem uma plenitude tal que nos toque tão profundamente a alma. Assim é na pintura, na música e na literatura. Seriam essas pessoas apenas instrumentos que Deus utilizaria para mandar espalhar a beleza no seu estado mais tocante pelo mundo.

Na literatura, psicografia é quando espíritos desencarnados lançam suas energias cósmicas para mãos escolhidas e estas reproduzem textos e mensagens de todos os matizes e para todos os gostos. Às vezes para satisfação de algumas necessidades, no caso de mensagens. Na pintura também chamam de psicografia, mas eu não acho que seja a denominação mais apropriada. No entanto, que diferença faz, diante do momento inexplicavelmente lindo que é essa espécie de transmutação cósmica para o sublime ato da criação artística? São uns iluminados, seres especiais, ungidos pela mediunidade.  Possuem as mãos prontas para os chamados. De tantos conhecidos nossos, creio que o Chico Xavier seja o mais famoso e o que mais tenha produzido obras de psicografia.

Enteografia** é que o que chamo a partir de agora aquelas escritas que acredito terem vindo de um sopro de Deus. Uma manifestação mais elevada ainda. A epifania traduzida em poesia, prosa e letras de música. Seus escritos falam com a alma humana.. Aqueles que se comunicam lá nos cantos mais profundos de nossa mente, fazem rir e chorar ao coração, estimulam mudanças interiores em busca de uma elevação espiritual sempre que os lemos, ouvimos ou vemos. Já elegi alguns dos que considero enteógrafos.

Fernando Pessoa

Chico Buarque

Niezstche

Sócrates (Platão)

Drummond

Clarice Lispector

Machado de Assis

Brecht

Aristóteles

Escolha os seus.

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* Iconografia é a descrição para o conhecimento de imagens

* Iconologia é a explicação simbólica ou alegórica de imagens.

**Enteografia – Seria a escrita, a composição ou a pintura divina. Deriva da palavra ENTEU, eu quer dizer  “inspirado por Deus”

Autor: José Cláudio Adão - Cacá

(Des)apontamentos da Copa

22-06-2010

Enquanto a turma vai batendo a sua bolinha muito leve eu vou tendo tempo de olhar outros lances mais curiosos que as bicudas na jabulani. Ela voa à toa e eu viajo junto aos seus devaneios no meio da massa ao acompanhamento de vuvuzelas enlouquecidas e uníssonas.

Os times do continente africano são uma verdadeira Europa, exceto pela “malemolência” dos jogadores, como se ouve a todo momento dos narradores de jogos. Nenhum dos cinco representantes possui um técnico negro. São todos europeus e brancos. Parece resquício de colonização. O time da Argélia parece a França. Quem se esquece do argelino/francês Zidane? Aliás, a Argélia é o mais francês dos países árabes muçulmanos da África. Dá pra entender? É coisa dos antigos impérios. A França diante do seu fracasso até agora, bem que pode torcer pra Argélia dar certo que vai parecer que está tudo em casa.  É bom dizer que com qualquer time europeu que  uma equipe africana for jogar, será colonizado versus colonizador. Estão lá Itália, França, Alemanha e Holanda, para falar dos principais.

Os jogos de ex-colônias com ex-metrópoles não revelam nenhuma sombra do passado. É pau a pau. EUA versus Inglaterra foi uma pelada e tanto! A Espanha enfrentará algum time das Américas Central e do Sul com grandes dificuldades. Podem eles não serem bons em libertação, mas na bola , a conversa é outra. Grande consolo… E o Brasil, será que vai pegar Portugal com pinta de filho maduro?

A Alemanha chamou a minha atenção por parecer o time mais legitimamente representante do capitalismo moderno. Competitivo, eficiente, forte, veloz e sem graça em termos de jogo de cintura. Esse último item no capitalismo é essencial para driblar a concorrência. É um futebol de alta tecnologia esportiva podemos dizer. O time em campo parece comandado pelo GPS do técnico. Muito eficiente, sabe aonde vai e a hora de chegar. Não quer dizer com isso que vá ganhar a copa.

Curioso o caso das Coréias. Elas são dois países em um só. Ou um país só em dois, como queiram. A geopolítica do mundo do dinheiro versus o mundo das idéias “fora do lugar.” Há o muro… Jogam uma bolinha meia-boca mas é um questão de honra para seus governantes um sair-se melhor do que o outro na competição, tal como é no dia a dia.

P.S: A bola está dando razão ao jogador brasileiro que a chamou de Patricinha ou são os jogadores que estão meio desvirtuados de qualquer direção? Nunca vi tanta bola jogada no meio da torcida! Cada lançamento estranho, cada gol mais esquisito. Se Continuar assim, vou declarar a jabulani como a grande campeã da copa.

(José Cláudio – Cacá)

Entre Copas e beijos

17-06-2010

Das minhas lembranças e do meu gosto pela arte do futebol ou futebol arte como preferirem, elegi as seleções de 70 e 82 como as melhores que já tivemos na história das copas. Não é assunto para polêmica uma vez que eu mesmo não me disponho a render assunto sobre isso. É só um gosto pessoal e pronto.

Assisto meu futebolzinho caladinho no meu cantinho. Já temos técnicos demais no meio das torcidas que a meu ver poderiam repetir aqueles momentos de catarse coletiva dos estádios para resolver outros problemas graves que a gente vive no dia-a-dia e não consegue juntar gente nem para protestar nem para escalar outro time de dirigentes nas nossas administrações.

Na hora do voto, a torcida sempre acaba jogando contra si mesma.

Pois foi em 82 que o meu amigo Joaquim se enamorou da Mariza pra valer mesmo. Paixão pra casar. O namoro engrenado nas noites Itabiranas foi parar na casa dela, afinal filha de família tradicional tem logo que levar o moço para ser apresentado aos pais e namorar ali, bonitinho no sofá da sala. Bonitinho mesmo era na rua. Em casa era apenas certinho, conforme o desejo e principalmente as exigências de moral e bons costumes de Seu Chico e Dona Maria, de saudosas memórias. Joaquim sempre foi um apaixonado pelo futebol, e pela Mariza, claro! Naquela época, o Brasil inteiro achava que a gloriosa seleção de Telê Santana traria o caneco, que desde a Jules Rimet não dava o ar de sua graça e enfeite nas cristaleiras de troféus da CBF.

O time era imbatível na opinião quase unânime dos brasileiros. Não podendo fazer muita coisa libidinosa no sofá da sala, o negócio era acompanhar as novelas e programas da televisão, sentados na companhia de Seu Chico e D. Maria. O futebol também era do gosto do sogro, que estava aprovando com muita alegria e esperança aquele namoro cheirando a casamento. Rapaz honesto, trabalhador, o “home da caneta”, segundo as definições de D. Maria por causa do seu preparo intelectual e sua função na empresa onde começara a trabalhar recentemente.

Isso, no entanto, não dava a ele o direito de folgar na casa. Folgar na minha terra é quando o genro já pode chegar aos fins de semana de chinelos, bermuda, almoçar na cabeceira da mesa oposta ao do sogro, xingar o cachorro impertinente e outras regalias, só permitidas quando o casório já está marcado.

Era um jogo das semi finais, daqueles eletrizantes e decisivos. Ganhando que fosse, o Brasil disputaria a final tão almejada do mundial. D. Maria, com seus conhecimentos futebolísticos manifestava-se com desdém. Não gostava e a única coisa que entendia era que a bola entrando lá dentro da rede significava gol. Não ficava, entretanto sem a companhia do seu Chico. E também não se conformava em assistir calada. O jogo nervoso e ela enervando a platéia:

- Óia lá, Chico, esse bando de vagabundo, devia era caçar um serviço, trabaía, que nem o Joaquim aqui, ó. Fica tudo correndo aí à toa atrais da bola e nem gole eles faiz!

- Mio ocê calá a boca, Maria, deixa a gente vê o jogo!

Primo e Mariza namorando “mais à vontade” depois que eles cochilam e de repente D. Maria acorda e o chama para irem para a cama. Ele se levanta põe a mão no televisor:

- Mió desliga. O apareio tá quente.

Primo tinha que sair correndo pra casa a fim de assistir ao final da partida. E Mariza ficava furiosa tanto com ele quanto com o pai.

A tv já não era mais daquelas de válvulas que esquentavam e tinham que ser desligadas de vez em quando para esfriar, mas o namorado não precisava saber disso. Era hora de acabar com as pegação pros donos da casa irem dormir. Não podiam ficar a sós para não fazerem “bobice” antes do casório.

Uma homenagem aos meus amigos-irmãos Joaquim Primo e Mariza.

(José Cláudio – Cacá)

A Conferência do Acaba Mundo!!!

11-06-2010

E eis que depois de Kyoto, Rio e Compenhagen, o mundo não chegou a um acordo quanto às mudanças climáticas. Também não chegou a acordo nenhum depois de Davos, entre os países e homens mais ricos do mundo. E o fórum social mundial reunia separada a turma que não concordava com as deliberações daqueles foros. Então foi marcada uma conferência já que o mundo estava na iminência de acabar de verdade. Derretimento de geleiras, um calorão danado em alguns lugares, frios cortantes em outros, inundações em todo o globo terrestre e o mar mandava avisar na Califórnia e algumas partes do Mediterrâneo que ia invadir as praias nos calçadões, monumentos e tudo o mais que encontrasse pela sua frente, inclusive os quiosques da cervejinha e água de côco. O mar quando não tá pra peixe, segura-lo, não é moleza não!

Estavam lá banqueiros de toda sorte e moedas, industriais das petroquímicas, de fertilizantes e agrotóxicos e todos os mais significativos representantes do lado poluidor, além dos donos dos maiores meios de comunicação do mundo. Os diálogos foram travados:

- Bota a culpa no povo. Porcaria tem limite. Temos que educar essa gente.

- Não tem problema, já inventamos um produto, o “spray general clean”.

Chiadeira dos americanos:

- Com esse nome, o pessoal do fórum social vai dizer que a culpa de tudo  seria nossa! Isso é nome de produto americano. Então, um outro propôs um nome latino, que aí não teria problema. O povo acredita.

- Tranqüilizem-se senhores, a gente ainda vai lucrar muito com isso. Agora, é preciso que imprensa faça a sua parte em campanhas nos seus jornais, programas, e principalmente massacrem de propaganda que estimulem o sentimento de culpa e que vendam a redenção. É infalível. No fim, vão continuar acreditando que a responsabilidade é  deles mesmos.

Um representante parecendo lúcido protestou:

- Mas quem polui mais, a ponto de causar o tão falado efeito estufa, reduzir a camada de ozônio são os grandes.

- Ora, de onde é mesmo esse homem? Protestaram quase todos em uníssono.

- No mínimo é comunista ou de algum país pobre que conseguiu entrar aqui sem autorização. Era um especialista contratado por eles mesmos.

Era preciso achar uma saída para depois que a porta de saída do evento se abrisse. A imprensa mundial estava ávida, lá fora, esperando para dar novidades em tempo real - não climático - para a população. Aquela tradicional briga de repórteres se acotovelando para garantir um furo, uma entrevista exclusiva, uma informação bombástica, algo impactante tanto quanto a questão discutida com tanta “seriedade e resolução”. Protocolos e cartas de intenção não colam mais. Lá dentro, os donos das redes de comunicação combinaram com os presentes para cada um falar uma posição diferente, quer dizer, uns contra , outros a favor das medidas discutidas. Até as polêmicas serem entendidas pelo mundo já ia estar próxima a data da outra reunião dos líderes mundiais para discutirem novamente o assunto. E o mundo não deverá acabar antes disso.

P.S: O fato de esta crônica não ter sido publicada no dia mundial do meio ambiente não quer dizer que o cronista empurrou com a barriga a discussão do problema, como é feito com a questão ambiental.

Cacá

Elevador

26-05-2010

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Deuzinha, minha irmã Celma, foi a primeira fabricianense a cursar o científico. Na comemoração do término, houve missa de ações de graças na capelinha de Nossa Senhora Auxiliadora, no Hospital Siderúrgica, com a presença de autoridades do lugar, inclusive o Prefeito, o Senhor Rufino.

Na formatura de Bioquímica da Deuzinha, também a primeira fabricianense a se formar em um curso superior, só o papai pode ir. Naquele tempo, a viagem Fabriciano-BH era na maria-fumaça da Vitória Minas – no tempo de chuva era normal levar dois dias - e de BH a Ouro Preto, realmente uma senhora viagem, com um ônibus por dia, se perdesse, só no dia seguinte - estrada de terra.

Em Belo Horizonte, papai se hospedava no Hotel Magalhães. José Maurício servia o Exército e foi ao hotel visitar papai para acompanhá-lo à Rodoviária. Com toda sua boa vontade de sempre, pega as malas, levando-as do quarto para o elevador. Desceram. Na saída do elevador, daqueles de grades sanfonadas, o braço do José Maurício fica entre as grades, quebrando. Foi aquela confusão! Um deus nos acuda! E papai não poderia deixar de pegar o único ônibus para Ouro Preto, pois deixaria de assistir à formatura.

José Maurício, com o braço quebrado, acompanhou papai até à Rodoviária, não aceitando que ele o levasse ao Pronto Socorro. Após a partida, José Maurício foi se tratar. Só mesmo o bondoso José Maurício para uma atitude dessa!

Ficha Limpa: Foi trocada a frase “pessoas que tenham sido condenadas” por “pessoas que forem condenadas”, isto é: se foram condenados podem ser candidatos! Futuramente não serão condenados porque adquirem imunidade!

Quer queira, quer não, ou quer saiba ou não, você – nós – é um idiota, pelo menos para os “nossos” sabidos deputados e os não menos sabichosos e nobres senadores!… Nossa próxima campanha será para derrubar a Imunidade!… Mais uma vergonha nacional!

Você é um doador de sangue, de medula ou de órgãos?… Pode ser… acredite!

Benedito Franco

Chifre em cabeça de cavalo

24-05-2010

Já reparou que os cavalos não dão coices com as patas da frente? Deve ser por isso que eu me aproximo observando e fico procurando chifres na suas cabeças. Se não achar nada, pelo menos não corro riscos maiores do que umas mordidas.

Pois é, disso eu fui pensar naquilo que move a inquietação juvenil atual além dos hormônios sexuais. O desejo de afronta, a necessidade de transformação, os impulsos à aventura estão adormecidos ou estão entorpecidos pelo poder da máquina de fazer de nós todos, marionetes de uma roda do consumo que não leva a muitas satisfações além daquela sensação de superioridade em uma disputa ferrenha de quem vai ter mais e melhor?

Se não está sendo possível deixar um mundo melhor para as próximas gerações, por que então não deixar as próximas gerações em condições de construírem este mesmo mundo de uma forma que não seja esse caminho por onde vamos indo e onde já estamos enxergando o início do beco que não terá saída? A que lugar pode ir o mundo senão ao fim, de fato com um apelo em nível global que só interessa produzir e consumir mercadorias como sendo a finalidade única e assaz satisfatória para a humanidade? E quanto mais se produz mais se quer produzir e quanto mais se esgotam os recursos naturais, mais se arranjam formas de substituí-las por artificiais, num processo predatório e destruidor.

E o que tem sobrado de contradição mais evidente no seio dos pensamentos dos quais querem amalgamar em um novo senso comum?  É tudo tão previsível em termos de perspectivas… Imprevisibilidade se acha apenas nos medos e paranóias individuais e coletivas sobre assaltos, sequestros e violências de todo o tipo. Mais não há que se pensar para um debate de acirrar ânimos de gente que está numa fase de desconstruções e reordenamentos interiores e exteriorizantes: a nossa outrora linda juventude.

A contradição, único alimento de agitação que existe hoje e que vem sendo considerada a coisa mais profunda em termos de validação de existências com bagagem intelectual e militante é em última análise: de um lado, os que acham o desenvolvimento da economia sendo barrado pela necessidade de se preservar o meio ambiente. De outro lado, os que querem preservar um ambiente salubre para a vida achando que a economia tem que respeitar alguns limites. E só.  E quem vai vencer nessa economia de argumentos? O dinheiro, certamente vai falar mais alto, pois não há mais como sequer se pensar uma organização social onde ele não seja a mola propulsora de tudo. Quer dizer, pensar até se pensa muito, mas soa absurda qualquer teoria que venha se opor ao culto que se faz aos bens materiais. Tudo se traduz em necessidade e todos acreditam que no fundo seja mesmo. O propalado “preço do progresso” que falamos até sem pensar às vezes no que isso significa, é o quanto custa para se criar a miséria humana em seu sentido mais pervertido.

Tem sido assim na história humana. De consenso em consenso, vamos tornando o planeta quase insuportável de se viver com o uso dessa inteligência fenomenal que Deus deu aos homens. O mundo é grande e muito ainda desconhecido. Precisa de utopias para não se desnortear tanto seguindo verdades de uns poucos que julgam a bel prazer que são ou podem ser seus donos.

Utopias precisam de idealismos para lhes dar forma. Quanta falta faz uma juventude inquieta com a ordem estabelecida…

Cacá

Profissões… Butantã

20-05-2010

Fim de ano no Seminário, os seminaristas éramos nomeados para algumas profissões durante o ano seguinte.

Todos os anos indicavam-me para desenhista. Os desenhistas escreviam faixas, desenhavam programas de festas, alguns desenhos ou pinturas na capela ou para as peças de teatro.

Três os sacristãos: o primeiro era o Luciano, Dalton o segundo – Luciano hoje é pianista e maestro e o Dalton é Padre Redentorista, tendo sido, inclusive, Provincial. Comecei pelo terceiro, e segundo no ano seguinte.

Fazia parte do pessoal que podia pegar os animais para o museu de história natural do Seminário. Os animais peçonhentos, venenosos, não colocados no museu, eram mandados para o Instituto Butantã em São Paulo. Principalmente durante as férias na Casa de Campo, íamos pegando as cobras e colocando em caixas enviadas pelo Butantã e no final, em um pátio interno, soltávamos as cobras e alguns sapos para elas comerem. Os meninos mais novos debruçavam-se no parapeito da varanda e se admiravam de eu estar ali no meio daqueles bichos pavorosos para alguns.

Falava-se que as caixas com as cobras eram entregues na estação ferroviária da Central do Brasil – hoje doada a uma multinacional - e seguiam no primeiro trem que passasse.

No setor onde o Butantã guardava as cobras – as embalsamadas – o fogo destruiu a maior coleção científica de cobras do mundo, iniciada há 120 anos. Cerca de 85 mil exemplares eram guardados no prédio. O acervo de aracnídeos, com 450 mil aranhas e escorpiões, também se perdeu. Junto com os mais de 500 mil espécimes de animais, o acervo digitalizado do Instituto Butantã pode ter se perdido no incêndio, que atingiu um galpão do centro de pesquisas, na capital paulista, na manhã de sábado último – 15/05/2010.

Durante pelo menos cinco anos, de 1953 a 1957, colegas e eu pegamos muitas cobras, que enviadas ao Butantã, talvez tenham sido embalsamadas, guardadas e talvez queimadas nesse triste incêndio ou salvas pelos bombeiros e cientistas. Neste caso, minha satisfação seria enorme, mas se queimadas, a tristeza também seria enorme – nos dois casos, a alegria e a tristeza seriam não só minhas, mas de toda a humanidade.

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Agora o Lula tentará acordar para que os EEUU, França, Israel, Rússia, e outros mais, enviem seus urânios para a Turquia purificar…

Consolo: O Japão não receberá nenhuma bomba atômica do Iran… e por isso, os dirigentes iranianos não serão julgados em Nuremberg… e nem levados para Guantánamo…

Você é um doador de sangue, de medula ou de órgãos?… Pode ser… acredite!

Benedito Franco

Uma vez redentorista, sempre redentorista

12-05-2010

Uma vez redentorista, sempre redentorista!

Com a crise econômica, os povos pobres ficaram mais pobres e os bancos mais ricos, pois receberam mais de três trilhões de dólares pelo mundo a fora - $ 3.000.000.000.000.00 !!! É muito zero, significando muito sacrifício e muita miséria!!!. Os bancos, não satisfeitos, arranjam mais uma crise e recebem mais um trilhão… e os países pobres da Europa vão sacrificar ainda mais seu pobre povo… a Grécia que o diga!

040 - Recife… e se casaram

Encontrávamos em Salvador, meu pai e eu, quando resolvi levá-lo a Propriá, cidade do Sergipe, onde um amigo, Dom José Brandão de Castro, mineiro de Rio Espera, era bispo - fora vigário em minha terra, Coronel Fabriciano, MG.

Viagem tranqüila. Admirando-nos da diferença da paisagem saindo da Bahia, a secura da terra e do mato, adentramos no Estado do Sergipe, bem mais frondoso e bonito, e com muitos canaviais, pelo menos beirando a estrada.

Dormimos a primeira noite em Aracaju, SE, no início da década de setenta, cidade pacata e simpática. Assistimos a um jogo de futebol no recém-inaugurado Estádio Batistão. Chamou-nos a atenção a presença de toda a família: crianças e adultos, moças, senhoras de idade, homens e rapazes. Lá tomei uma vitamina de jenipapo, muito apreciado pelos nordestinos e que aqui em Minas não usamos - ainda hoje, quando me lembro, vem-me no estômago e na boca seu gosto enjoativo.

No interior-norte do Sergipe, entrando em Propriá, um calor escaldante, espantamo-nos com todo o comércio no meio da rua - sacarias, carnes, roupas, brinquedos, panelas, enfim, barracas de tudo, quase impedindo a passagem de carros e… sem uma viv’alma!

Dom Brandão explicou-nos que a cidade fazia a sesta, o povo dormia das onze às quatorze horas, todos os dias; o comércio, e até os bancos, fechavam as portas.

Mesmo beirando o Rio São Francisco, O Velho Chico, a alma da cidade e da região, o calor era sufocante - com a particularidade da ausência de janelas nos quartos das casas - atenua o calor, afirmam.

Quando o nível do rio subia bastante, um grande terreno particular ao lado da cidade virava uma lagoa, enchendo-se de peixes, tirados à medida que a lagoa secava.

Rumo a Recife

Dom Brandão insistiu para conhecermos Recife e Olinda. Papai contava-nos, aos filhos, que a família da mãe, Vovó Olinda, descendia de holandeses e teria vindo de Olinda para Minas.

Fomos nós. Atravessamos o rio na balsa, ou chata, transportando carros e pessoas.

Chegamos à noite à bela Maceió, onde apenas dormimos e, de manhã, depois de uma volta pela cidade, seguimos para Recife. No meio do caminho, uma vez que posto de gasolina  era raro, paramos em uma casa de um casal para pedirmos água. Comoveu-nos a satisfação da pobre senhora em estar recebendo e servindo a conterrâneos do JK - até nos ofereceu milho assado, colhido em sua pequena plantação.

No Recife, no centro da cidade, ao lado do Rio Capibaribe, perto de sua foz, nós nos hospedamos em um antigo hotel - linda vista!

Procurei entrar em contato com o Ferdi, um engenheiro químico, amigo de estágio em Barra Mansa, RJ, em uma fábrica de produtos químicos e explosivos. Telefonando-lhe, apareceu imediatamente, levando-me para conhecer Recife.

Linda Recife!

Impressionante como Recife é linda! As pontes largas e enormes. Os prédios e casas antigos chamam-nos a atenção e nos toca, recordando-nos a história do Brasil.

Às duas da manhã, visitava eu a fábrica de Tintas Coral, onde o Ferdi trabalhava, conhecendo-a nos pormenores - maravilha! Recordei-me de quando trabalhei numa fábrica de tintas especiais, no Rio de Janeiro.

As praias do Recife são deslumbrantes, assim como toda orla por onde passei - o clima é propício para as praias e o lazer; vale a pena visitá-lo! Cuidado, pois hoje há os tubarões - dentro e fora da água!

Às quatro da manhã, depois de rodarmos quase toda a cidade, o Ferdi deixou-me no hotel.

Ferdi, uma figura interessantíssima - o coração maior que ele. Um dia, contou-me, ia passando de carro e viu alguns soldados arrastando um rapaz para levá-lo preso, desconhecido para ele - caçavam terroristas. Desceu do carro, atrapalhou todo o trânsito e foi lá. Chegou lutando com os soldados, tomando o jovem de suas mãos. Os soldados, espantados com tamanha fúria, partiram para cima, dando-lhe uma tremenda surra.  Alguns dias preso, e como nada constava contra, soltaram-no – tempos da ditadura.

No dia seguinte conhecemos Olinda - linda no nome e em tudo existente por lá - percebem-se o cheiro e a presença da história - a nossa história. Adquiri um Cristo esculpido num pedaço de madeira tirada de portas de casas antigas - madeira doada pela Prefeitura do Recife - talhado por um menino de rua que fazia parte de uma escolinha, cujos professores eram alunos da Escola de Belas Artes de Recife - lindo! Como diria minha sogra, Dona Rosa, a gente sai de Olinda com gosto de jornal velho na boca!

Zélias

Quando conheci o Ferdi, namorado apaixonadíssimo da Zélia, com quem se casou - falava seu nome cinqüenta e uma de cada cem palavras pronunciadas - e quando não mais a cantava e a decantava em cantos e versos, exaltava novamente Zélia, nome de uma amiga comum.

A Zélia descobriu que estava grávida e com câncer, logo que se casou. Com todo cuidado e recursos da época, conseguiu dar à luz uma menina, falecendo dias após. No leito de morte, assistida pelo Ferdi e pela Zélia amiga, pediu que a amiga tomasse conta da filha recém nascida e… se casasse com o Ferdi.

E se casaram.

Acreditem! Cheguei num sábado, quando o Ferdi deixou a nova esposa Zélia e a filha, conheci as duas, para me mostrar Recife.

Só que… se casou no dia anterior, na sexta-feira à noite…

Esse era o meu amigo Ferdi!…

Benedito Franco