
Esta cidade, devido as condições topográficas das bacias alimentares de suas fontes precisa, sem perda de tempo, proteger suas águas, que não se poderiam conservar sem o abrigo da vegetação [...] E se os itabiranos quiserem uma prova desta verdade, subam a vertente chamada da "Serra" e procurem lá mananciais de que os mais velhos do lugar dão noticia: encontrarão seus leitos vazios e sulcados pelas enxurradas. Pois, exatamente nessa vertente, observamos nós a mais vasta destruição das matas.
NEVES, Lourenço Baeta. Abastecimento D'água à cidade de Itabira do Matto Dentro. Imprensa Official do Estado de Minas. Belo Horizonte: 1905.
Tendo suas cabeceiras na parte mais elevada da Serra de Santo Antônio, o córrego Santo Antônio desce pelo declive das serras, em um estreito vale, até juntar-se ao Rio Tanque, no local em que esse se junta ao Rio Quebra-Ossos, na localidade denominada "Duas Pontes".
Desde suas nascentes até desaguar no Rio Tanque, o córrego Santo Antônio recebe inúmeros afluentes, alguns bastante significativos como o "Córrego do Turvo" e o "Córrego da Chapada" que encorpam suas águas.
Já no século XVIII, há indícios de ocupação na área. As construções datadas desse período e outras posteriores atestam essa fase de ocupação: os paióis, os engenhos, os moinhos, as mini-usinas produtoras de energia, os batedores e debulhadores de milho, as fotografias de avós e bisavós carinhosamente conservadas nas salas das fazendas, e cercas vivas das propriedades testemunham a ocupação e a história.
As fazendas dessa região, todas situadas no fundo de vales, seguem o curso do Ribeirão Santo Antônio e seus tributários. Nesse vale marcado pela sinuosidade do percurso das águas, instalou-se, desde o final do século XVIII, uma atividade agrícola de subsistência, dominada por uma estrutura agrária familiar, em que poucas famílias eram donas das propriedades. O núcleo e local de congregação dessas relações era o povoado de São José do Turvo, devido à presença da capela e do cemitério.
Várias construções que aí existiam, sedes de fazendas, foram demolidas, dando lugar a outras habitações; as que ainda resistem ao tempo conservam, em suas fisionomias e em suas instalações, um patrimônio considerável que testemunha um passado e deve ser preservado.
Nas incursões pelas paisagens do vale, destacam-se, nas narrativas e nas descrições dessa paisagem, as fazendas: Cubango, Mundo-Vira, Barra do Turvo, Barra do Santo Antônio, Chapada de São Pedro e Tabatinga, além do povoado e das fazendas de São José do Turvo, lembrando que no dizer de Claval:
Os traços da maioria das paisagens resultam de múltiplas decisões de atores sociais, muitas vezes modestos, que edificaram as construções da fazenda, cultivaram os campos, criaram e mantiveram as estradas. Suas preocupações eram sobretudo utilitárias: era preciso viver, tirar do meio ambiente a sua nutrição; [...] as construções eram concebidas para conservar as colheitas, abrigar os animais, debulhar os grãos, proteger os instrumentos de trabalho e alojar as pessoas. Para construí-las, os agricultores apelavam para os artesãos, carpinteiros, pedreiros e oleiros, aos quais ajudavam muitas vezes como mão-de-obra, e lhes serviam de mestres-de-obras. As preocupações destes últimos não eram explicitamente estéticas: eles tentavam, com meios limitados pelas disponibilidades do mandatário e pelos materiais localmente disponíveis, responder às necessidades expressadas por seus clientes. Tinham em mente, para guiá-los uma imagem do que deveria ser uma casa. (2004, p.60 e 61)
FAZENDA CUBANGO E FAZENDA MUNDO-VIRA
As fazendas Cubango e Mundo-Vira guardam histórias semelhantes, uma vez que pertenceram à mesma família; posteriormente, a grande propriedade foi dividida por herança. A Fazenda Cubango, localizada na cabeceira do córrego Santo Antônio, cuja construção atual data da segunda metade do século XX, deu lugar à antiga construção aí existente.
Fazenda Cubango
A construção foi edificada no fundo do vale escavado pelas águas do Córrego Santo Antônio que, em uma declividade acentuada, escavou a rocha, deixando aí uma forma singular. A intenção era construir em local aberto, mas, segundo Alvarenga, nem tudo saiu como planejado:
Foi antes de passar o Cubango ao irmão que Amynthas construiu a casa nova, fez três barragens onde tentou criar tucunaré. [...] Amynthas trouxe Albertina para ver a casa do Cubango que estava gasta. Resolveram reformá-la, fazer banheiro, mesmo que já tivessem pronta a planta da nova casa. No entanto essa faria ao alto do morro, não na grota. Queriam uma vista de toda área, a beleza das montanhas e dos terrenos planos. O córrego passando lá embaixo, entre as pedras. Queria olhar os vales recobertos de verde. Que idéia de Novato construir naquele fundo de chão, ali no buraco, onde as encostas sufocam a casa! O povo antigo gostava de se esconder, isso sim. Por segurança? Quem sabe? Amynthas contratou um parente de Albertina para fazer as reformas, explicando-lhe que, mais tarde faria a casa definitiva. Acho que a explicação não foi muito clara, pois o homem derrubou a casa velha e, no lugar construiu a nova, que decepção quando o casal descobriu o erro! Estavam condenados às férias no fundo da grota, que lhe impedia a paisagem. Paciência! Fazer o que? (1999, p.19)
Esse belíssimo relato descreve, de uma só vez, paisagem e entorno, além dos sujeitos ocultos e das experiências vividas.
O edifício-sede da Fazenda Cubango chama a atenção pelas linhas modernas de sua arquitetura, diferentemente do grande sobrado de muitas portas e janelas, característico da maioria das construções rurais, talvez pela época em que foi edificado e pelas vivências de seu proprietário à época da construção.
Fazenda Mundo-Vira
Em relação à Fazenda Mundo-Vira, a sede atual data de 1970 e deu lugar à antiga edificação que antecedeu à atual. Resultado de divisão de propriedade por herança, Mundo-Vira e Cubango faziam parte de uma mesma propriedade que se estendia da Serra de Santo Antônio até a baixada, confinando com a fazenda Santa Catarina, como confirma Alvarenga:
E, ainda não lhes contei que, quando os irmãos ganharam a maioridade, cada um tomando seu rumo, foram divididos os bens. Amynthas ficou com o Cubango, Luciano com o Mundo Vira [...] A construção da sede atual antecedeu às necessidades da família:[...] Mas, com a temporada na região de Itabira as coisas mudaram. Veio Luciano e construiu nova casa no Mundo Vira, preparando-o para receber seus filhos nas férias. (1999, p. 19)
A Fazenda Mundo-Vira pertenceu a Gregório Coelho de Moraes e Luciano Martins da Costa e, depois, por herança, a José Luciano de Morais, nascido em 1864. José Luciano era casado com Felisberta de Sá Jaques. José Luciano e Felisberta eram pais de Amynthas, que herdou a Fazenda do Cubango e Luciano que herdou a Fazenda Mundo-Vira.
Na década de 1970, verifica-se, com mais intensidade, a mudança no modelo de ocupação e função das propriedades rurais: de lugar da família, de criação dos filhos, de profissão-fazendeiro que passa de pai para filho por herança e por "genética", a locus de passar férias, de ir de vez em quando, já que os filhos não herdam mais a terra e a continuidade do trabalho no campo: herdam apenas as terras, o trabalho não, as profissões são outras, voltadas para a vida urbana.
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