O Tempero da Vida - Por Thiago Borges

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DVD - Sessão Comentada

O Tempero da Vida - Por Thiago Borges

Nome original: Politiki Kouzina
Ano: 2003
Direção: Tassos Boulmetis
Elenco: Georges Corraface (Fanis Iakovidis), Ieroklis Michaelidis (Savvas Iakovidis), Basak Köklükaya (Saime), Tassos Bandis (Sr. Vasilis), Odysseas Papaspiliopoulos (Fanis - jovem), Markos Osse (Fanis - criança), Gözde Akyildiz (Saime - criança).


“Se eu me atrasar lembre-se de olhar para as estrelas onde quer que você esteja. No céu há coisas que nós podemos ver, mas há também coisas que não podemos ver. Fale sempre sobre as coisas que outros não podem ver. As pessoas gostam de ouvir histórias sobre coisas que elas não podem ver. Com a comida é a mesma coisa. Que importa não vermos o sal se a comida está saborosa?”

Assim, o avô Vasilis se despede do neto Fanis, quando uma parte de sua família, de origem grega, é deportada da Turquia. Ótimo motivo para pensarmos no peso das palavras. Não todas, não a conversa fiada de todo dia. Trata-se de palavras que por algum motivo se tornam muito mais do que discurso. Deixam de ser só representação, de ser um instrumento pelo qual transformamos idéias na cabeça em signos reconhecidos coletivamente. Estou pensando nesse tipo de palavra que marca fundo, bem no fundo. Dessas que vão de pai pra filho, de avô pra neto, e que na hora parecem não ter muita importância. É um pouco disso, também, que trata o filme. Mas não é bem assim. É melhor que antes, sem afobamento, caminhemos por partes.

Vejam, primeiro, quem é Fanis: um professor universitário, astrônomo (céu) reconhecido e também um excelente cozinheiro (comida), que, como eu disse, ainda criança vai morar na Grécia. Seu avô, Vasilis, era dono de uma lojinha de especiarias e grande conhecedor de suas propriedades. Com ele, Fanis aprendeu muito cedo que à vida e às comidas é preciso adicionar tempero. “A essência está no sal” e a comparação entre os rituais que compõem as histórias e o preparo dos alimentos nos mostra o que seriam os sais da vida. O Tempero da Vida fala de alguns deles. É um filme sobre a saudade, sobre a nostalgia, sobre o amor. Não sei direito o que são essas coisas e nem conheço alguém que saiba exatamente, mas sei que todos nós conseguimos nos fazer entender quando usamos esses termos. Para transitar nesses sentimentos, o roteiro se constrói em torno de: laços rompidos com a partida, efeitos da ausência, lembranças e a relação com a perda. Tudo isso muito bem temperado, entremeado por um cenário cultural e político em que a histórica rivalidade dos gregos e turcos é reavivada por um conflito no Chipre.

O filme se divide em três partes, como uma bela refeição: a entrada, o prato principal e a sobremesa. Sem limites precisos, a história vai e vem dos flashbacks pros dias atuais, contando como Fanis se separou de Istambul, do avô e de Saime, uma coleguinha por quem se apaixonara. Nas lembranças, o protagonista vai, pouco a pouco, se envolvendo com a cozinha, inspirado pelos conselhos do avô que vão desde o segredo para se ter a melhor almôndega até importantes constatações etimológicas. Numa dessas, que abre o filme, descobrimos que a palavra grega para sonho contém a palavra grega para arroto. Sem que o sentido disso fique claro, o filme fala dos rituais que dão sabor à alimentação e às histórias, mas, indo além, me parece apontar para o resultado de duas ebulições diferentes: a dos sonhos que se dá na cabeça e a do arroto, no estômago. A idéia é torná-las equivalentes e o filme desenvolve isso bem ao retratar a importância da alimentação nas culturas da Grécia e da Turquia. Lembremos que Istambul, antiga Constantinopla, tem um papel extremamente destacada na história do ocidente ao servir de ligação com o oriente, de onde vinham as especiarias. Devemos nossa “descoberta” a um contratempo histórico, em que os portugueses visavam justamente chegar às Índias, em busca de uma rota alternativa para as especiarias. Para além das lembranças, o nostálgico Fanis tem que conviver com a definitiva ausência do avô, enquanto tenta resgatar o amor de Saime.

Retornar a Istambul é mais do que uma volta pra casa. Um tio que vive viajando diz a Fanis que existem os viajantes que olham no mapa — os que estão sempre partindo —, e outros que olham pro espelho. Olhar-se no espelho é voltar pra casa. Istambul é o espelho de Fanis. Se algo pode servir de justificativa ao fato dele nunca ter visitado o avô ao longo de tantos anos, só pode ser o que seu avô diz: “quando se deixa um lugar deve-se falar sobre o lugar para onde se está indo, não sobre o lugar que se está deixando para trás”. A afirmação é também a causa de Vasilis nunca ter voltado à Grécia. O espelho de Fanis contém a gastronomia, palavra que, como diz seu avô, contém a astronomia. É o que eu dizia no início, acerca de palavras que marcam fundo, como aquelas citadas. Pois é. Está aí o “feliz” encontro de alguém com tudo aquilo que o fez ser o que é. O que se anunciara era a antecipação do reconhecimento de todos os temperos — tudo que ia salgar uma vida — por alguém que entendia de canela, coentro, cominho, noz-moscada, pimenta, açafrão, cravo... Aplicados não só aos pratos.

Muito do filme é relato autobiográfico de seu diretor, Tassos Boulmetis, nascido em Istambul, mas que passa 30 anos de sua vida na Grécia, “sem se olhar no espelho”. Ele conduz bem uma história simples, mas que, carregada de valor simbólico, consegue levar ao choro e ao riso. Além do que, dá uma vontade louca de comer, comer muito e bem! Só é de se lamentar o fato da tv e do cinema não terem cheiro. Como seria bom sentir o ar que se respira nos almoços e na lojinha de Vasilis! Um último desvio delirante, que não é a cereja no bolo, mas tem uma bela frase — sagrada (!) — que vem a calhar. O pecado original fez com que o homem merecesse conviver com as tentações dos sete pecados capitais, dentre eles, a gula. Adão e Eva comeram o fruto talvez por orgulho, ou por preferirem o amor-de-si ao amor de Deus — o que é outra hipótese — ou ainda simplesmente por caírem no truque da interessada serpente. Certo é que já estavam avisados, no Gênesis, de que “no dia em que comerdes o fruto, os vossos olhos vão se abrir e sereis como deuses”. A astronomia e a gastronomia, e as ciências em geral, são ou não são exemplos daquilo que nos abrem os olhos, lidando com as coisas que não se pode ver?

Thiago Borges de Almeida
07.11.08

11 Respostas para "O Tempero da Vida - Por Thiago Borges"

  • maria diz:

    excelente!!!!!!! Me faz lembrar conceito de cultura

  • vania diz:

    nos olhamos o todo.mais precisamos descobrir as partes.este filme nos leva de maneira gostosa compreender as coisas simples da vida e que marcam para sempre.a historia da vida nosso relaconamentos e o tempero.v

  • juliana diz:

    esse filme passou na minha escola ....( cnsa)

  • Alan diz:

    Filme excelente, recomendo!

  • cleide diz:

    ja passou na minha faculdade é muito bom principalmente pra gente que faz gastronomia é uma forma de nos ajuda mais a entendo o alimento

  • Jaque diz:

    Tbm passou na ufpr esse filmeee...hahaha;]

  • julia diz:

    ESTE FILME PASSOU NA MINHA FACULDADE

  • Samuel diz:

    Me lembrou o "Chocolate"... filme massa tb!!

  • rita diz:

    O filme é mesmo muito bom... As passagens em que os cozinheiros da família estragam a comida para levantarem questões sobre os relacionamentos são ótimas também. Sem contar as partes divertidas em que o pequeno Fanis faz comida durante a noite. :)

  • Quezia Mara diz:

    Excelente! Grande dica.

  • Bárbara diz:

    O que? Comida? Já gostei!!!

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